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Editorial

Tsunami de Corrupção

26 Nov 2015 - 08h28


A prisão do senador Delcídio (PT) ontem, dentro de mais uma fase da operação Lava Jato, mergulhou o país num mar de corrupção tão denso, maléfico e prejudicial quanto a tsunami de lama que escoou das barragens da mineradora Samarco, em Mariana, Minas Gerais. Da mesma forma que a lama varreu diversos municípios e deixou um rastro de destruição ambiental, a prisão do homem que tinha a missão de representar o Palácio do Planalto no Senado Federal deverá abrir feridas profundas no governo, mesmo porque é impossível dissociar a imagem de Delcídio da presidente Dilma Rousseff e do próprio Partido dos Trabalhadores. A começar pela amizade entre ambos, que nasceu nos tempos em que tanto Delcídio quanto Dilma trabalhavam na Petrobras e se consolidou quando ambos chegaram ao governo do petista Luiz Inácio Lula da Silva. Delcídio, aliás, teve papel importante na compra da refinaria da Astra Oil, em Pasadena, nos Estados Unidos, pela Petrobras e que deixou prejuízo de mais de R$ 1 bilhão para a Petrobras, mesmo porque a indicação de Nestor Cerveró para a diretoria internacional da estatal foi colocada na conta do senador petista.

O papel de Delcídio nesta transação mal explicada só foi menos importante que o da então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que poderia ter vetado o negócio na condição de presidente do Conselho de Administração da Petrobras, mas preferiu abonar a compra superfaturada. Talvez esteja neste episódio o fio do novelo capaz de desvendar o envolvimento do líder do governo no Senado Federal na tentativa mal sucedida de calar Nestor Cerveró e, até mesmo, de querer tirar o ex-diretor do país de forma clandestina. Que outro motivo teria Delcídio para impedir a delação premiada de Nestor Cerveró se não para preservar a presidente Dilma Rousseff das irregularidades cometidas na compra da refinaria de Pasadena? A primeira tentativa do Palácio do Planalto após a prisão do líder do governo na manhã de ontem foi tentar dissociar a imagem de Delcídio do governo, como se fosse possível a criatura ganhar vida própria e agir sem a anuência do criador. Caberá agora ao Poder Judiciário mostrar ao país, como bem fez ontem o ministro Teori Zavascki, durante sessão especial do Supremo Tribunal Federal (STF), que o senador tentou passar por cima das instituições democráticas ao interferir nas investigações da Operação Lava Jato.

Ao mesmo tempo, caberá ao Senado Federal legitimar a decisão da Suprema Corte, mantendo a prisão do senador Delcídio para mostrar à sociedade que nenhum cidadão, por mais poder que julgue possuir, está acima do bem ou do mal. Mesmo porque, a prisão de um senador da República causou um constrangimento incomensurável no Senado Federal a partir do momento em que revelou para a nação e para a comunidade internacional que o modus operandi da política no Brasil não difere em muito do que ocorre hoje na Venezuela, na Bolívia, no Peru ou em Cuba, onde os amigos do poder pensam que podem ultrajar as instituições democráticas e ridicularizar o Poder Judiciário. Num lampejo de moralidade, de bom senso e de seriedade, os senadores devem não apenas legitimar a prisão preventiva decretada pelo Supremo Tribunal Federal, mas, também instaurar de imediato um processo de cassação de mandato por quebra grave de decoro parlamentar, mesmo porque não é papel de nenhum senador da República sair por aí tentando tirar criminoso do país e, tampouco, atrapalhando o devido processo legal numa investigação criminal à cargo da Procuradoria-Geral da República.

Por outro lado, a postura do ministro Teori Zavascki, apoiada de imediato por todos os membros da Suprema Corte, mostram que o Brasil vive uma nova época e que as instituições estão funcionando a todo vapor. Quem, em sã consciência, poderia apostar que um dia após a mesma Polícia Federal prender o empresário José Carlos Bumlai, considerado uma das maiores eminências pardas da política brasileira em virtude do passe livre que tinha no Palácio do Planalto durante os oito anos do governo Luiz Inácio Lula da Silva, um senador com cargo de líder do governo federal fosse parar atrás das grades? Essa postura firme da Suprema Corte do país tranquiliza aqueles que temiam pelo futuro das instituições democráticas brasileiras e mandou um recado emblemático aos que tratam a coisa pública como se fosse privada: o Brasil não é a Venezuela, está muito longe de virar uma Bolívia e jamais será uma Cuba, onde os poderosos manipulam o Poder Judiciário e calam os veículos de comunicação.

O número

R$ 1 bilhão foi o prejuízo causado à Petrobras com a compra da refinaria em Pasadena, nos Estados Unidos, num esquema envolvendo políticos e partidos.

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