Dourados – MS domingo, 20 de junho de 2021
Dourados
19º max
10º min
Editorial

Saúde Pública Ameaçada

02 Jul 2016 - 06h00
Saúde Pública Ameaçada -
A decisão do presidente Michel Temer de sancionar a lei que permite a dispersão por aviões de inseticidas de combate ao mosquito transmissor Aedes aegypti coloca em risco a saúde da população brasileira. Ainda que a proposta tenha nascido por iniciativa da presidente afastada Dilma Rousseff, por meio de Medida Provisória, o atual presidente não foi vigilante ao sancionar a lei, mesmo porque especialistas questionavam não apenas a eficácia da medida, mas, também, os riscos que ela proporcionará à saúde da população. Ao invés de relativizar a saúde pública, o governo federal deveria buscar outras formas de combate ao mosquito transmissor de zika, dengue e febre chikungunya, mesmo porque os aviões que terão a missão de despejar o larvicida sobre as cidades e, consequentemente, sobre a população serão os mesmos que as empresas de aviação agrícola empregam para pulverizar as lavouras com seus pesticidas, herbicidas e agrotóxicos. Que garantia a população terá que o larvicida repassado pelo Ministério da Saúde não será contaminado por resíduos de agrotóxicos nos tanques dos aviões da aviação agrícola?


Ainda que a dispersão por aeronaves utilizaria os mesmos produtos químicos do popular fumacê, carros dos órgãos de saúde que emitem uma espécie de vapor com o inseticida, nunca é demais lembrar que ao jogar esse veneno sobre as residências os órgãos de vigilância sanitária também estarão assumindo o risco de contaminar a população, mesmo porque o Malation, um dos principais produtos utilizados contra o mosquito, já foi classificado como possível cancerígeno pela agência do câncer da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 2007 o governo federal havia pensado em utilizar aeronaves para combater o mosquito, mas a iniciativa foi rejeitada pela Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde e recebeu nova recusa em nota técnica de abril deste ano feita pelo Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e do Trabalhador, de forma que nada justifica a presidência da República sancionar uma lei que confronta o próprio Ministério da Saúde. Ademais, pelo simples fato dessa prática oferecer risco de contaminação de pessoas e do meio ambiente pelo uso aéreo de produtos químicos para combater o mosquito já deveria ter sido rejeitada pelo governo federal.


O próprio Conselho Nacional de Saúde, em seu colegiado composto por entidades da sociedade civil e representantes de órgãos do governo, emitiu uma moção de repúdio à nova lei, ao mesmo tempo em que a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), que reúne pesquisadores e instituições de ensino, também se manifestou contra a medida levada a efeito pelo governo federal. Os demais órgãos do setor da saúde pública rejeitam a prática por ela oferecer risco de contaminação de pessoas e do meio ambiente pelo uso aéreo de produtos químicos para combater o mosquito, uma vez que a pulverização aérea exigiria uma quantidade maior de produtos químicos, já que há uma maior dispersão até atingir o solo. Em outra frente, o Conselho Nacional de Saúde e o Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e do Trabalhador alerta que o uso de aviação agrícola para despejar o veneno aumentaria o risco de contaminação de fontes de água usadas no abastecimento ou na agricultura, o risco de doenças na população mais frágil, como idosos e crianças e também poderia resultar na eliminação de outros insetos importantes para o equilíbrio ecológico.


Também causa preocupação a permissão para que o Brasil continue usando glifosato na lavoura, mesmo porque esse agrotóxico está relacionado ao aparecimento de doenças como câncer, depressão, Alzheimer, diabetes, autismo e mal de Parkinson, conforme o parecer técnico produzido por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O princípio ativo é considerado pouco perigoso aos humanos e ao meio ambiente, segundo classificação dos órgãos reguladores nacionais da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), mas o glifosato está proibido na maioria dos países desenvolvidos, enquanto o Brasil lidera o mercado de agrotóxicos do mundo e, em 2012, foi responsável por 19% das vendas mundiais desses produtos. O relatório, atualizado em setembro de 2015, apontou ainda que o glifosato e seus sais lideram o ranking de princípios ativos mais vendidos no país, com 185.956,13 toneladas.

Deixe seu Comentário

Leia Também

Presidente do Senado cobra ajuda para salvar empresas
Comitê da Pandemia

Presidente do Senado cobra ajuda para salvar empresas

15/04/2021 14:30
Presidente do Senado cobra ajuda para salvar empresas
Últimas Notícias