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Redação do Enem levanta debate sobre machismo

27 Out 2015 - 07h00
Cabo Gleice ministra palestras sobre violência contra a mulher. - Crédito: Foto: Cido CostaCabo Gleice ministra palestras sobre violência contra a mulher. - Crédito: Foto: Cido Costa
Falar sobre igualdade de gênero entre homem e mulher ainda é um tabu na sociedade. Prova disso foi o tema da redação do Enem 2015 - “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira” –, assunto que causou furor. Motivo? A violência doméstica ainda é um dos grandes problemas do país.


A redação vem sendo chamada como “Enem feminista”. Nas redes sociais, de um lado, usuários comemoraram a reflexão do problema da violência de gênero na prova de 7 milhões de candidatos do final de semana às vagas em universidades brasileiras. Mas teve muita gente intitulando a prova de “esquerdista” por tratar de tema relacionado aos direitos das mulheres. Também teve quem intitulou o tema da redação como “doutrina” do Ministério da Educação (MEC).


A redação esquentou o debate bastante presente nas redes sociais, porém sempre polêmico quando tratado abertamente. A delegada Rozeli Dolor Galego, titular da Delegacia da Mulher em Dourados, diz que o tema foi muito válido. “Esse assunto esteve em milhões de lares brasileiros de jovens e adultos que prestaram a prova do Enem. Isso é muito bom e a violência doméstica tem que, cada vez mais, ser discutida”, defende a delegada.


Para a professora mestre Tchella Maso, coordenadora do curso de Relações Internacionais na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), o tema da redação foi pertinente e a violência contra a mulher precisa ser cada vez mais politizado. “Trata-se de um assunto de saúde pública. Ainda vivemos numa sociedade patriarcal, machista”, diz a professora, chamando a atenção para o desrespeito em geral contra a mulher, a exemplo das “cantadas” nas ruas e assédio no dia a dia.


Discussões e debates são, para ela, condições essenciais que devem envolver a família, a escola, muito embora neste último a temática “gênero” tenha sido excluída dos planos de educação na maioria das cidades do país, por acreditarem que trata-se de ideologia. “Isso é um retrocesso, mas enfim, o que nós, mulheres, lutamos, hoje em dia, não é por mais conquistas, e sim pela permanência daquelas que vêm sendo alcançadas desde a década de 60, como direito ao mercado de trabalho, à igualdade”, reitera a mestre, que é membro da Marcha Mundial das Mulheres.


A policial cabo Gleice dos Santos defende a farda militar há 17 anos. Ela atua no 3º Batalhão da Polícia Militar em Dourados e há muito tempo ministra palestras sobre violência doméstica. Por conviver diretamente com vítimas, ela sabe que, embora existam leis de proteção, a violência ainda persiste e a mulher sempre fica exposta à vulnerabilidade. “A redação do Enem foi um fortalecimento necessário e justo”, diz a policial, que tem filhas adolescentes que fizeram o Enem e gostaram da temática.

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O histórico cultural em que o homem é considerado superior em comparação à mulher ainda é muito presente na sociedade. De acordo com a delegada Rozeli Dolor Galego, quando se fala em violência contra a mulher, é preciso também ser investigada a violência psicológica e não apenas a física.


Os principais agressores, segundo ela, são os companheiros ou ex-companheiros, pessoas que convivem diretamente com as mulheres. “São esses os casos que mais lideram”, afirma. De janeiro até sexta-feira, 1283 mulheres procuraram a delegacia em Dourados para prestar queixa sobre violência doméstica. O quantitativo se mantém em comparação ao mesmo período do ano passado.

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