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Editorial

Reciclagem Desprezada

07 Jul 2016 - 06h00
Estudo realizado pelo Ministério das Cidades revela que o Brasil produz diariamente mais de 240 mil toneladas de lixo, sendo que mais de 40% desse total, ou seja, cerca de 100 mil toneladas/dia são despejadas em aterros a céu aberto, situação que configura a triste realidade da maioria das cidades brasileiras, uma vez que apenas 8% dos 5.565 municípios adotam programas de coleta seletiva. Mesmo tendo criado uma Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída pela Lei Federal 12.305, de 2 de agosto de 2010, e regulamentada pelo Decreto Federal 7.404, de 23 de dezembro de 2010, o Brasil não consegue fazer com que seus gestores municipais e estaduais dotem os municípios não apenas de aterros sanitários, mas, sobretudo, de programas de coleta seletiva para permitir que a maior parte do lixo acabe reciclado. Além da agressão ao meio ambiente, ao abrir mão da política ecologicamente correta da coleta seletiva, o Brasil perde cerca de R$ 10 bilhões todos os anos por deixar de reciclar os resíduos que poderiam ter outro fim, mas que são encaminhados aos aterros e lixões das cidades. Significa que o dinheiro perdido anualmente seria capaz para, um prazo de 10 anos, construir aterros sanitários em todos os municípios.


O contraditório, ainda que a situação seja lastimável quando se fala em reciclagem, é que estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a pedido do Ministério do Meio Ambiente, aponta que o volume do lixo urbano reciclado aumentou nos últimos anos em parte das cidades brasileiras, saltando de 5 milhões de toneladas em 2003 para 10,1 milhões de toneladas em 2014, o que corresponde a cercade 17% dos resíduos gerados nas cidades. Se considerada apenas o lixo classificado como fração seca, que é o plástico, vidro, metais, papel e borracha, o índice de reciclagem subiu de 17% em 2004 para 32% em 2014, assegurando um retorno financeiro de mais de R$ 15 bilhões por ano para os setores envolvidos no mercado de recicláveis. Mais importante: entre 2000 e 2014, houve um aumento de 148% no número de municípios com coleta seletiva, chegando a 1050 cidades, a maioria localizada nas regiões Sul e Sudeste do país, mas essa realidade está presente em apenas 20% dos municípios brasileiros.


Ainda que o brasileiro esteja mais consciente em relação a importância da reciclagem de materiais que não são biodegradáveis, ou seja, que não são absorvidos pelo meio ambiente, muita coisa ainda precisa ser feita para dotar o país de uma cultura ambiental. É o que aponta o mais recente levantamento realizado pela Associação Brasileira das Indústrias do PET (Abipet) – que congrega os fabricantes da resina PET, de embalagens de PET e os recicladores das embalagens pós-consumo. De acordo com a pesquisa, somente em 2014 o volume de embalagens recicladas bateu na casa das 170 mil toneladas, um aumento de 31% em relação a 2010. Estima-se que pelo menos 700 mil pessoas trabalhem informalmente na coleta de materiais recicláveis em todo o Brasil e números do Ministério do Trabalho apontam que o setor emprega mais de 30 mil pessoas com carteira assinada. Além da geração de milhares de empregos diretos e indiretos, a reciclagem tem no meio ambiente o ponto mais importante. Basta atentar para o fato que uma garrafa PET demora mais de 100 anos para ser degradada pela natureza, ou seja, quem joga uma embalagem dessa em rios, praias ou terrenos baldios está deixando uma herança maldita para as próximas gerações.


Se a consciência ecológica continuar crescendo, em pouco tempo mais de 60% de toda embalagem PET colocada no mercado será reciclada. Hoje, 70% dessas embalagens vão para o mercado de refrigerante, mas o que a população desconhece, principalmente aquela que consome refrigerante, é que o PET é uma resina termoplástica, em material atóxico, totalmente inerte e 100% reciclável. Esse percentual de reciclagem já está perto de ser alcançado quando se analisa a realidade das latinhas de alumínio, onde 97,1% das embalagens que foram disponibilizadas no mercado em 2014 tiveram como fim a reciclagem. Lamentavelmente, esse elevado índice de reciclagem que o país apresenta no setor de alumínio não é fruto de políticas de desenvolvimento sustentável ou de consciência ambiental, mas correto por um fator exclusivamente social, já que milhares de famílias encontram nas latinhas uma fonte de complemento de renda. Fica claro portanto, que a reciclagem de lixo no Brasil ocorre muito mais por um fator de sobrevivência do que por obra e graça de políticas públicas.

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