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Editorial

O preço das Olimpíadas

27 Jun 2016 - 06h00
As cidades brasileiras estão fazendo festa para receber a tocha que simboliza os Jogos Olímpicos do Rio, ignorando o custo que essa aventura vai custar para o Brasil e para os brasileiros. Quando venceu a concorrência para sediar os jogos, o Rio de Janeiro apresentou no dossiê da candidatura um valor total estimado em R$ 28,8 bilhões, exatos R$ 7,5 bilhões a mais do que o custo dos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, que praticamente mergulhou a Grécia na sua mais profunda crise financeira. Há poucas semanas, o governo refez as contas e concluiu que, além de todos os demais reajustes feitos anteriormente, precisaria de mais R$ 400 milhões para realizar os jogos do Rio, elevando para R$ 39,1 bilhões os gastos nessa aventura, ou seja, quase o dobro do valor gasto por Atenas em 2004. Fica claro, portanto, que o Brasil herdará uma dívida difícil de ser paga com a realização dos Jogos Olímpicos e, mais preocupante, todo dinheiro arrecadado com a venda dos ingressos para as modalidade tarifadas vão direto para os cofres do Comitê Olímpico Internacional (COI), fragilizando ainda mais a economia brasileira.


Mas o que poucos se perguntam é quanto custa a passagem da fantasiosa tocha olímpica por uma cidade? Os números são guardados a sete chaves pelos prefeitos das cidades que recebem a chama olímpica, mas a permanência da tocha por um período de 12 horas em Brasília, no dia 3 de maio, custou a bagatela de R$ 4,3 milhões para os cofres públicos desde a chegada no Aeroporto Juscelino Kubitschek até o revezamento por 15 monumentos e cinco regiões do Distrito Federal. Dos R$ 4,3 milhões gastos para receber a tocha olímpica, exatos R$ 3,8 milhões foram desembolsados pelo Governo do Distrito Federal, enquanto os R$ 500 mil restantes foram usados para cobrir gastos com os 3,5 mil policiais envolvidos no esquema de segurança ao longo do trajeto do revezamento. Nesse valor não entram os R$ 500 mil usados para realização de shows na Esplanada do Ministério, com R$ 250 mil sendo disponibilizados pelo Ministério da Cultura e outros R$ 250 mil pelo Ministério do Turismo. É impossível não vincular essa gastança com o que ocorreu em Atenas, quando os jogos levaram prestígio e fizeram a Grécia reviver a glória e a pompa dos jogos pan-helênicos da Antiguidade, além de polir a autoestima e o orgulho da população, mas quebrou o país.


Se os Jogos Olímpicos de Atenas custaram o equivalente a R$ 21,3 bilhões e foram considerados os mais caros da era moderna, como classificar os R$ 39,1 bilhões que serão torrados na realização dos Jogos do Rio? No custo final dos jogos anteriores a Atenas, as Olimpíadas de Sydney custaram R$ 11,8 bilhões, quase a metade do que os gregos gastaram e pouco menos de um quarto do que está sendo aplicado nos Jogos do Rio. Se tivesse um pouco de zelo com o dinheiro público, o Brasil deveria ter seguido o que fez Estocolmo, na Suécia, que se recusou a sediar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022 em virtude dos gastos necessários para bancar a festança que beneficia apenas o Comitê Olímpico Internacional. Democraticamente, os partidos políticos colocaram o tema em votação e os suecos optaram por não se candidatar à disputa para receber o evento por entender que Estocolmo tem prioridades mais importantes e que a conta para organizar os jogos seria alta demais para ser bancada com dinheiro público. O Rio de Janeiro, certamente, não tem nenhuma outra prioridade para gastar tanto com a realização desses jogos.


No Brasil, além dos quase R$ 40 bilhões que sairão diretamente dos cofres públicos, o governo federal ainda vai perder R$ 3,8 bilhões em receitas com as renúncias tributárias para os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos. Os números foram apresentados pela Receita Federal após análise do Tribunal de Contas da União (TCU), que apontou a necessidade de maior transparência nas informações sobre a isenção fiscal. O Brasil comprometeu-se com a isenção de tributos federais na entrada, saída e circulação de bens e serviços destinados à organização e à realização dos Jogos Olímpicos, abrindo mão de receitas importantes mesmo com os ingressos para as jogos sendo cobrados. A isenção concedida pelo governo federal, estadual e municipal beneficia o Comitê Olímpico Internacional (COI), o Comitê Organizador dos Jogos Rio-2016 e outras entidades relacionadas com o evento. Somente a isenção da Cofins custará R$ 937,3 milhões aos cofres federais, dinheiro que poderia garantir a construção de 10 hospitais de grande porte.

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