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“Nódulos da tireóide são frequentes”

02 Mai 2011 - 03h39
Médico Rafael Susin - Crédito: Foto : DivulgaçãoMédico Rafael Susin - Crédito: Foto : Divulgação
O médico Rafael Susin é o entrevistado desta segunda-feira de O PROGRESSO. Ele fala sobre uma doença que atinge cada vez mais as pessoas, ou seja, os nódulos tiroideanos.

Quando malígnos eles são chamados de câncer de tireóide. Com os avanços tecnológicos na Medicina, principalmente o ultra-som, os nódulos tireoidianos tem sido frequentemente detectados, conforme esclarecimento do cirurgião. Ele também lembra que cânceres de tireóide em estágios iniciais tem chance de cura maiores que 90%.


O PROGRESSO - Porque o problema na tireóide vem afetando tanta gente? Tem a ver com o stress da chamada vida moderna?

Rafael Susin: Os problemas na glândula tireóide sempre existiram, porém com os avanços tecnológicos na Medicina, principalmente o ultra-som, os nódulos tireoidianos são mais frequentemente detectados. Podemos citar ainda que atualmente a população tem mais acesso aos exames laboratoriais e está mais informada. Isso faz com que, estatisticamente, a incidência de patologias aumente. Não existem estudos que mostrem a correlação entre problemas da tireóide e o stress da vida moderna.


Qual a realidade de Dourados?

R: A realidade de Dourados não difere de outras cidades brasileiras. O que é observado em estudos recentes é um aumento da incidência de nódulos tireoidianos. Como mencionado, esse aumento é devido aos recursos empregados para a detecção das doenças da tireóide.

Quais as doenças que podem acometer a glândula tireóide?


R: A tireóide pode sofrer de doenças que acometam sua forma (aumento difuso ou nodular), sua função (hipertireoidismo ou hipotireoidismo), ou ambas. Os nódulos de tireóide podem ser únicos ou múltiplos, benignos ou malignos, produtores de hormônio ou não. A grande maioria dos nódulos tireoidianos são benignos e não produzem hormônios. Geralmente a presença dos nódulos não interfere na produção global de hormônios pela glândula, mas alguns nódulos podem produzir hormônios em excesso, independente do controle da hipófise.

Devido à presença dos nódulos a glândula pode adquirir grandes dimensões, causando sintomas compressivos cervicais (falta de ar ou dificuldade para engolir). Porém, nem todas as tireóides aumentadas têm nódulos, uma vez que a glândula pode estar difusamente aumentada (em geral devido à deficiência de Iodo ou a doenças auto-imunes).

Por que aparecem os nódulos na tireóide?

R: As causas dos nódulos da tireóide tem sido amplamente estudadas e debatidas. Os fatores mais claramente relacionados com a formação de nódulos são a carência de Iodo na dieta e o hipotireoidismo (elevação do TSH). Há, sem dúvida, uma maior predisposição de se desenvolver nódulos tireoidianos com o aumento da idade.

Alguns estudos mostram que o consumo de iodo em excesso leva ao aparecimento do bócio, assim como a gravidez aumenta as chances de aparecimento de nódulos. Todos os nódulos da tireóide devem ser avaliados para se afastar a possiblidade de serem câncer de tireóide.

As doenças da tireóide afetam a voz?

R: Raramente. O hipotireoidismo é uma condição clínica que pode levar em alguns casos a rouquidão e alterações no timbre da voz (voz mais grossa). O câncer de tireóide, principalmente nos estágios iniciais, dificilmente leva a rouquidão. Somente casos avançados costumam levar a alterações na função das cordas vocais.

Por que se faz a cirurgia da tireóide?

R: As principais razões para se realizar a tireoidectomia é a suspeita de malignidade. Apesar de não ser freqüente, o nódulo de tireóide pode ser um câncer de tireóide. Quando o médico suspeita de malignidade pela palpação dos nódulos tireóidianos ou pelo exame de punção aspirativa por agulha fina (PAAF), somente a cirurgia pode dar a certeza se o nódulo é maligno ou não.

Compressão cervical , desvio de traquéia ou bócios mergulhantes: Tireóide muito aumentada ou com nódulos que levam a sintomas de compressão de estruturas cervicais, causando dificuldades para engolir e respirar são também motivos que levam a cirurgia. Tireóides que cresceram em direção ao tórax, ou bócios mergulhantes, também devem ser operadas.

Hipertireoidismo refratário a tratamento clínico, nestes caso indica-se tireoidectomia quando o paciente não tolera o tratamento com remédios ou este não está sendo suficientemente eficaz para controlar o hipertireoidismo, principalmente quando a tireóide for muito aumentada ou com nódulos. Embora não seja uma indicação comum, nódulos que levam a um desconforto estético podem justificar uma cirurgia de tireóide.

Como o câncer de tireóide normalmente se apresenta?

R: A típica apresentação do câncer de tireóide são em mulheres de 30 a 50 anos com um nódulo palpável cervical que representa um nódulo tireoidiano ou um linfonodo cervical. A freqüência em mulheres é duas vezes maior que nos homens. Quando o diagnóstico é feito, os nódulos tireoidianos são habitualmente de 1 a 4 centímetros e apresentam metástases linfonodais em um terço, mas raras vezes metástases a distância são encontradas. É pouco freqüente o câncer de tireóide estar causando rouquidão ao ser descoberto

O câncer de tireóide é comum?

R: O câncer de tireóide não é um câncer comum. Ele representa 1 a 2% de todos os cânceres. Todavia é o tipo de câncer endócrino mais comum e é um dos poucos tipos de câncer que tem aumentado sua incidência com o tempo. Em parte, este fenômeno é explicado pelo aumento do diagnostico precoce através de exames de tireóide por outros motivos. Estima-se que 18 em cada 100.000 mulheres desenvolvem câncer de tireóide no Brasil anualmente. A proporção de incidência entre homens e mulheres é 1 : 3.

Como se trata o câncer de tireóide?

R: Basicamente o tratamento é cirúrgico e consiste em realizar a tireoidectomia total. A cirurgia retira a glândula tireóide e resseca gânglios linfáticos adjacentes acometidos pelo tumor, o que se chama de esvaziamento cervical. No pós-operatório faz-se a supressão hormonal, que consiste em repor o hormônio tireoidiano com uma dose um pouco superior a necessária, com o intuito de diminuir a produção pela hipófise do TSH, um hormônio que estimula o crescimento do câncer de tireóide. O objetivo é deixar os níveis de TSH em um valor inferior ao nível normal.

O câncer de tireóide normalmente volta? Ele pode ser fatal?

R: Até um terço dos cânceres bem diferenciados de tireóide recidivam e retornam principalmente em gânglios (linfonodos) cervicais. Pode se passar até 20 anos para o câncer de tireóide reaparecer, por isso é necessário seu seguimento a longo prazo. Este seguimento envolve o exame físico cervical e exames laboratoriais como tireoglobulina (marcador tumoral), TSH, ultra-sonografia cervical, cintilografia de corpo inteiro, raio X e ressonância magnética. O câncer de tireóide pode ser fatal e normalmente isto ocorre quando os fatores da questão anterior ocorrem. Estima-se nos EUA, cerca de 1490 pessoas morreram de câncer de tireóide em 2005.

As chances de cura são boas?

R: Sim. Os cânceres de tireóide em estágios iniciais tem chance de cura maiores que 90%. Diversos estudos revelam que pacientes submetidos a tratamento de câncer bem diferenciado de tireóide tem até 95% de chance de estar vivos após 20 anos. Os pacientes que não apresentam boa evolução normalmente recorrem precocemente. Pacientes com metáteses cervicais não tem uma chance maior de morrer pela doença.

Como saber se é portador deste tipo de câncer?

R: Procure um médico endocrinologista ou cirurgião de cabeça e pescoço que avaliarão sua tireóide pela palpação e exame de ultra-sonografia para checar se não apresenta nódulos tireoidianos. Se estes forem encontrados, pode ser necessário realizar um exame de punção aspirativa por agulha fina, que é a melhor forma de tirar se um nódulo é maligno ou não.

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