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Editorial

Menosprezando a Dengue

04 Nov 2015 - 07h00


Na mesma semana em que o Ministério da Saúde confirmou que os casos de dengue triplicaram este ano no Brasil e o número de mortes em virtude da doença aumentou 70% em comparação com o ano passado, surge a informação que dos R$ 13,4 milhões reservados para a Coordenação Nacional da Vigilância, Prevenção e Controle da Dengue, menos de R$ 3 milhões foram efetivamente investidos, o que representa cerca de 23% dos recursos. O dinheiro deveria financiar estudos, pesquisas e capacitação profissional para o combate à dengue nos municípios com maior incidência do mosquito, mas, pelo jeito, o Ministério da Saúde está esperando uma nova epidemia se confirmar no verão que se aproxima para aplicar os recursos que estão parados nos cofres federais. Os R$ 10 milhões que o governo federal deixou de investir deveriam garantir ainda auxílio ao aperfeiçoamento do programa de controle da dengue, realização de termo de cooperação e aquisição de veículos e equipamentos para doação a Estados e municípios, numa prova inequívoca que as autoridades não tratam esse problema com a prioridade que se exige nas questões de saúde pública.

É fato que o Ministério da Saúde repassa cerca de R$ 1 bilhão anuais aos Estados e municípios, por meio do Piso Fixo de Vigilância e Promoção à Saúde, mas também é fato que nenhum centavo deve ser contingenciado no combate à doença que já matou 693 pessoas somente nos nove primeiros meses de 2015, mesmo porque não é possível afirmar quanto dos cerca de r4 1 bilhão é utilizado especificamente para o combate a dengue. Esse contigenciamento dos recursos da Coordenação Nacional da Vigilância, Prevenção e Controle da Dengue vem se acumulando ano após ano e na mesma velocidade que aumentam os casos da doença em todo o Brasil. Em 2014, por exemplo, dos R$ 10,1 milhões reservados pelo governo federal para a Coordenação Nacional da Vigilância, Prevenção e Controle da Dengue, nenhum centavo havia sido investido até o dia 1º de dezembro. É inverossímil que num país onde milhares de pessoas sofrem com dengue todos os anos e centenas perdem a vida em virtude de complicações motivadas pela dengue, o governo economize dinheiro para combate à doença.

Como os recursos do piso são repassados para que os gestores locais adotem medidas de prevenção e controle de outras doenças além da dengue, como a malária e a doenças de chagas, fica praticamente impossível saber quanto é investido por cada município no combate ao mosquito Aedes aegypti. As estimativas, contudo, revelam que cerca de 70% da verba do Piso é aplicada no combate à dengue, o que daria cerca de R$ 700 milhões entre os 5.560 municípios brasileiros. No orçamento do Ministério da Saúde deste ano, havia previsão de dotação de R$ 5,7 milhões a mais para o combate à dengue em relação aos valores reservados em 2014, mas o desembolso foi reduzido. Apenas 23% do total orçado foram empenhados para o plano orçamentário da dengue, mas esse valor não corresponde ao total desembolsado pelo Ministério da Saúde para ações que envolvam a dengue. Independente da falta de empenho governamental em combater a dengue, os demais setores da sociedade brasileira, sobretudo os organizados, não podem fugir da obrigação de perseguir esse inimigo quase invisível.

Esse matutino já abordou, por dezenas de vezes, o assunto nesse mesmo espaço e alertou que se cada um fizer a parte que lhe compete, a epidemia poderá ser evitada, porém se a população continuar deduzindo que o risco da doença é mínimo, todo o Brasil viverá o caos que se espalhou por milhares de municípios no ano passado. Chegou a hora de colocar em prática as informações que chegaram aos milhões de brasileiros através das campanhas desenvolvidas para conscientizar sobre a importância da prevenção. Todo mundo sabe que recipientes que acumulam água são pontos de proliferação do mosquito da dengue, mas nem todos têm o cuidado de acabar com esses pontos de água parada. Todos sabem que não deve-se cultivar plantas em vasos com água, mas a maioria dos lares brasileiros tem sua plantinha em pratos com água. O momento é de atenção e cuidados profundos contra a dengue, pois a vítima pode ser a pessoa mais próxima e a omissão de alguns pode custar a vida de muitos, mesmo porque a temporada de chuvas parece mais intensa neste ano e a previsão de um verão escaldante só ajuda a multiplicar os riscos de uma epidemia em todo o país.

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