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Segurança e Saúde JBS
Editorial

Dependência do Crack

05 Jul 2016 - 06h00
O governo federal federal falhou em muitos pontos nos últimos 15 anos, mas nenhuma fala é tão prejudicial ao conjunto da sociedade que a falta de políticas públicas para a dependência química, sobretudo para a epidemia de crack que avançou sobre todas as cidades brasileiras. Ainda que tenha ampliado os debates em torno do desenvolvimento de políticas públicas capazes de assegurar tratamento adequado aos dependentes químicos, a desarticulação entre os setores do governo encarregados da prevenção e do combate às drogas tem motivado críticas da sociedade organizada e, até mesmo, de organismos governamentais como a Secretaria Nacional Antidrogas, que reprova a atuação das forças de segurança no combate ao tráfico de entorpecentes ao longo da fronteira brasileira. O mais grave é que mesmo falando em ampliar atendimento aos dependentes químicos e a prevenção, o governo federal não tem conseguido gastar os recursos destinados à políticas de combate às drogas. Fica claro, portanto, que a promessa de envolver todos as forças do governo federal numa verdadeira guerra ao crack ficou apenas na promessa.


Na ânsia de atacar o problema com maior rigor, o Palácio do Planalto chegou a trabalhar com a possibilidade de dar status de ministério à Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, mas tudo não passou de promessa e o Brasil seguiu sem nada de concreto para a prevenção ao uso de drogas, a não ser as campanhas tímidas que chegam às crianças por meio de iniciativas isoladas. O país tem hoje mais de cinco milhões de viciados somente em crack, ou seja, na soma das demais drogas ilícitas a dependência deve passar da casa dos 10 milhões de pessoas, número que salta facilmente para 15 ou 20 milhões se forem consideras a dependência química de drogas lícitas como o álcool, por exemplo. O governo federal precisa apoiar as ações municipais e estaduais de tratamento aos dependentes químicos, assegurando condições para que governos e prefeituras possam recuperar essas pessoas para o convívio social. Pesquisa realizada pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM) aponta que o crack está presente em mais de 90% das 5.565 cidades brasileiras e que na maioria delas a droga já é vista como uma verdadeira epidemia em virtude do elevado número de dependentes químcos e, sobretudo, dos prejuízos sociais que causa às famílias.


Depois que a droga tomou conta dos municípios, o governo federal decidiu enfrentar o crack e anunciou um conjunto de ações estruturadas nos eixos cuidado, prevenção e autoridade, com a promessa de investir R$ 4 bilhões para livrar o maior número possível de pessoas da dependência química, mas tudo ficou apenas na promessa. Um dos primeiros passos seria ampliar a oferta de tratamento de saúde aos usuários de drogas e a qualificação de profissionais que atuam nessa frente, de forma que os municípios passassem a figurar como os principais parceiros do governo federal no atendimento por meio dos centros de recuperação, mas nada foi feito e o único trabalho visível hoje nesta área ainda é feito exclusivamente por entidades particulares e quase todas ligadas às igrejas católicas e evangélicas. A proposta do governo, para não dizer promessa, era criar uma rede de atendimento com estrutura diferenciada para receber pacientes em diferentes situações e auxiliar dependentes químicos na superação do vício e na reinserção social, mas nada foi feito.


O governo chegou a prometer a criação de enfermarias especializadas nos hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS), com investimentos de R$ 670,6 milhões para a criação de 2.462 leitos exclusivos para usuário de drogas até 2014, mas 2016 já está na metade e pouca coisa saiu do papel. Na área de combate ao tráfico de drogas, o governo federal anunciou a realização de concurso público para contratar 1,5 mil novos policiais rodoviários federais e 1,3 mil policiais federais ainda em 2012 para trabalhar nas fronteiras, mas nada foi feito neste sentido, pelo contrário, as fronteiras ficaram ainda mais vulneráveis. Além disso, os municípios seguem carregando nas costas o pesado fardo de prevenção ao consumo e, sobretudo, de tratamento aos dependentes químicos, de forma que os Centros de Referência em Assistência Social (CRAS) não conseguem atender nem um terço da demanda, penalizando famílias que estão perdendo seus filhos para as drogas diante da total inércia dos organismos governamentais em atacar esse problema de frente.

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