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Crise provoca migração para escola pública

15 Jan 2016 - 09h30
Luciene Cândido e a filha Gabriella mostram recibos de pagamentos feitos durante 2015. - Crédito: Foto: DivulgaçãoLuciene Cândido e a filha Gabriella mostram recibos de pagamentos feitos durante 2015. - Crédito: Foto: Divulgação
Dados da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep) mostram que a crise econômica, que gera impactos no orçamento das famílias, pode causar perda de 10% a 12% das matrículas na rede particular este ano. A estimativa leva em conta as dificuldades enfrentadas pelos pais para pagar as mensalidades. Como alternativa, eles estão migrando cada vez mais para a rede pública.


De acordo com o último levantamento divulgado pela Serasa Experian, a inadimplência dos estudantes de instituições particulares de ensino fundamental, médio e superior é significativa e aumentou 22,6% no Brasil em comparação entre os anos de 2015 e 2014.


Outra pesquisa, desta vez do Ibope Inteligência para a Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostrou que a crise econômica levou 13% dos entrevistados a trocar os filhos de escola privada para escola pública, de junho de 2014 a junho de 2015.


Para se ter uma ideia, dados das secretarias municipal e estadual de Educação do Rio de Janeiro revelam que um contingente de 48 mil alunos migrou da rede particular de ensino para a pública. Na rede estadual, das 220.497 novas matrículas, 26.459 são de estudantes que vieram de escolas particulares, cerca de 12%. O percentual supera, em muito, o verificado nos dois anos anteriores, que foram de 4% e 8%. Já na municipal, o número é de 21.675 alunos, entre as 91.844 novas matrículas.

MS


Em Dourados, o acréscimo de 12% nas mensalidades, mais a compra de materiais exclusivos e de consumo, foram predominantes para técnica administrativa Luciene Cândido de Oliveira, optar este ano pela rede pública para o ensino da filha Gabriella Cândido Ovando, de seis anos.


Mesmo tendo um benefício que garante à filha 50% de desconto na mensalidade, ela teria que desembolsar a quantia de R$ 1.425 para arcar com as despesas básicas deste mês. Deste total, R$ 295 são da mensalidade, R$ 530 de apostilas exclusivas do método utilizado na escola e outros R$ 600 de materiais de consumo que são cadernos, lápis, canetas, entre outros como até mesmo lencinhos umedecidos, exigidos pela escola.


Somando tudo o que gastaria durante o ano todo, a conta de Luciene com a escola ficaria R$ 4.670,00 este ano. Isto, pagando com desconto de 50% na mensalidade. Se fosse arcar com o valor integral, a conta dela seria de R$ 8.210,00 em 2016. “E não é só isto. O valor fica ainda mais alto com as despesas a mais para manter a criança na escola. Só de uniforme, cada camiseta custa R$ 32. Além disso tem o lanche diário que deve ter alimentos mais saudáveis, o que gera um investimento de pelo menos R$ 5 por refeição. Sem contar com o combustível que a gente gasta para levar a criança todos os dias”, conta, observando que quando colocou a sua filha na particular sabia dos reajustes anuais, mas que devido à crise econômica que atinge o bolso dos brasileiros, não terá mais como arcar com estas despesas.


Outro motivo que a fez optar pela rede pública foi a qualidade do ensino. “Eu tenho acompanhado a evolução das escolas públicas de Dourados e vejo que hoje temos excelentes estruturas. Para se ter uma ideia, hoje o aluno da rede pública pode participar do programa Nace, que oferece uma série de cursos em unidades particulares, tudo de forma gratuita. A minha filha tem um sonho que é fazer balé e graças ao Nace, se ela conseguir vaga na rede municipal poderá realizar isso, sendo assistida nas melhores escolas de dança de Dourados”, destaca.


Luciene já fez a pré matrícula de Gabriella no 2º ano para a Escola Joaquim Murtinho, mas revela que não conseguiu uma vaga ainda na designação que já foi feita. “Eu estou muito preocupada porque tenho medo da minha filha ficar sem poder estudar. As inscrições da escola particular terminam dia 15 e para segurar a vaga sou obrigada a pagar matrícula e os materiais que juntos passam de R$ 1,425. A lista do município com os nomes contemplados a vagas só sairá dia 25”, explica.

Pesquisa


Enquete do site Dourados Agora mostrou que a tendência dos pais é mesmo optar pela rede pública. A enquete fez a seguinte pergunta: “Com a crise econômica no País, você trocaria o ensino particular pelo público?”. Do total de votos, 48,8% responderam que sim – trocariam a escola particular pela pública, outros 34 responderam que não trocariam, 7,9% responderam que ainda têm alguma dúvida, 6,8% disseram que não viam crise alguma e 2,2% responderam que o custo pago nas escolas particulares não fazia diferença no orçamento pessoal.

Ensino Público


Em Mato Grosso do Sul, a Secretaria Estadual de Educação ainda está em período de inscrição das matrículas digitais e por conta disso ainda não tem um balanço sobre quantos alunos migraram da rede particular para a pública. Até o momento, o que se constata é que dos 236 mil alunos matriculados, 169,2 mil renovaram suas matrículas e outros 66,8 mil são as pré-matrículas que envolvem novos alunos e aqueles que querem transferência.


Em Dourados, a secretária municipal de Educação Marinisa Mizoguchi disse que a procura pelas escolas públicas municipais vem crescendo ano a ano. “O que se nota nas minhas conversas com os coordenadores de escola é que antes havia uma boa procura de estudantes também da classe média baixa. Agora todas as classes sociais, inclusive a média alta e a alta já estão na rede pública”, destacou, observando que muito da procura também está relacionada a qualidade no ensino que vem melhorando.


Segundo Mizoguchi, para este ano estão previstos 26 mil alunos da rede municipal. “Uma das boas notícias é a de que estaremos ofertando 1.5 mil vagas de matrículas para alunos com faixa etária de 4 a 5 anos, atendendo as recomendações da meta 1 do Plano Nacional de Educação”, comemora observando que há 3 anos mais de 1 mil vagas foram ofertadas nesta faixa etária.


Escolas particulares


Em Dourados, o Sindicato dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Sintrae) acredita que a crise não chegará no Estado de MS com a mesma proporção dos grandes centros. De acordo com o vice-presidente da entidade, o economista Carlos Vitorati, as escolas particulares de Dourados estão otimistas. “Em 2015 houve uma boa recuperação do setor da agricultura e, se este ano a chuva não atrapalhar, o Estado terá bons resultados com as safras da soja, milho, álcool e açúcar, o que deve equilibrar a economia local. Não acredito que haverá um grande número de saídas das particulares para as públicas porque os pais ainda estão otimistas e tem uma clareza da importância da qualidade do ensino privado para o futuro dos seus filhos”, analisa.


Segundo ele, a previsão é de que as particulares tenham que reajustar os valores das mensalidades em até 15% para acompanhar a inflação.

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