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Saúde

Desafio da dignidade menstrual é ainda maior em conflitos, avalia diretora do Unfpa

Em entrevista à ONU News, diretora da agência da ONU no Reino Unido, Mónica Ferro, destaca a necessidade urgente de acesso a itens de higiene menstrual

13 Fev 2024 - 12h00Por ONU News
Um enorme progresso foi feito na última década ao destacar que a menstruação não é apenas uma questão de saúde, higiene e dignidade, mas também uma questão de igualdade de gênero e direitos humanos - Crédito: UNFPA/WaterAid IndiaUm enorme progresso foi feito na última década ao destacar que a menstruação não é apenas uma questão de saúde, higiene e dignidade, mas também uma questão de igualdade de gênero e direitos humanos - Crédito: UNFPA/WaterAid India

Mais da metade da população menstrua, mas o assunto ainda é muitas vezes negligenciado nas políticas públicas. A avaliação é da diretora da agência das Nações Unidas para saúde sexual e reprodutiva, Mónica Ferro, que destaca como a dificuldade no acesso de itens de higiene menstrual afeta mulheres no mundo todo.

Segundo o Fundo de População da ONU, Unfpa, diariamente, a menstruação faz parte da realidade de cerca de 800 milhões de pessoas entre 15 e 49 anos. De Londres, a representante da agência falou à ONU News e apontou que o período menstrual se transforma num assunto ainda mais sensível em meio aos conflitos.

Dignidade menstrual e conflitos

“Mais de metade da humanidade menstrua. E é como diz a minha diretora executiva, a Dra. Natalia Kanem, é uma daquelas poucas fases da nossa vida em que nós temos dores, em que sangramos, e é suposto não se falar sobre o assunto. A maneira como as meninas nas escolas partilha produtos de higiene menstrual, como se fosse algo escondido, algo vergonhoso. Quando se começou a falar sobre estas questões, veio à luz do dia essa questão da pobreza menstrual. Se descobrir que não só nos conflitos e países de baixo rendimento, é um problema gravíssimo para as meninas. Uma menina do Sudão disse em um dos nossos painéis ‘às vezes tenho que escolher entre comprar pão ou comprar absorventes’. É um dilema insuperável, ela não vai deixar de ter o período dela, precisa de produtos que possam permitir viver essa experiência com dignidade e sem infecções”

Mónica Ferro explica que o estigma social da menstruação e a falta de recursos adequados podem causar graves problemas à saúde feminina, além de tirarem meninas das salas de aulas e limitarem oportunidades a mulheres adultas.

De acordo com os especialistas,

De acordo com os especialistas, “apesar de campanhas recentes de mulheres para desafiar os tabus da menstruação deve haver mais esforços para enfrentar os desafios do ciclo menstrual.” - Foto ONU: Eskinder Debebe

 

“Muitas das meninas e das mulheres, quando não têm meios para comprar os produtos de que necessitam, recorrem a estratégias, como, por exemplo, pedaços de pano velho, meias, pedaços de toalhas. Tudo isto não permite a higiene adequada e, portanto, as infecções são muitas. Há meninas que deixam de ir à escola por não ter dinheiro para comprar os materiais menstruais ou que não vão à escola porque não têm uma casa de banho onde possam fazer a sua higiene.”

Gaza, financiamento e acesso à ajuda humanitária

A higiene menstrual se soma às muitas questões que o Unfpa atende em situações de crise. Segundo a agência de saúde sexual e reprodutiva da ONU, em meados de janeiro, pouco mais de três meses após o início dos conflitos em Gaza, as necessidades de mulheres e meninas em idade fértil já era grande. 

Com a dificuldade da entrada de ajuda humanitária, apenas pouco mais de 5 mil pessoas receberam kits, muito longe das mais 690 mil mulheres e meninas que precisam dos itens.

Desde o início do conflito em Gaza, os números apontam que as mulheres e as crianças têm sido o grupo mais afetado. Afirmando que “seja qual for a crise, ela sempre tem o rosto de uma mulher”, Mónica lembra que a cada vez que o orçamento para respostas humanitárias é cortado, são elas as mais afetadas.

Ela alerta que, além da higiene menstrual, os conflitos privam muitas gestantes de nutrição fundamental e serviços. A diretora do Unfpa ainda destaca que a violência sexual nos conflitos aumenta a vulnerabilidade das mulheres, que têm seus direitos humanos mais básicos continuamente ameaçados.

Diretora do Escritório do Unfpa em Genebra, Mónica Ferro.Diretora do Escritório do Unfpa em Genebra, Mónica Ferro - Foto: ONU/Jean-Marc Ferré

 

Distribuição de absorventes

A representante do Unfpa afirma que quem pensa que higiene menstrual é uma questão da apenas de situações de conflito ou de países de baixa renda se engana. 

A falta de itens necessários para o período menstrual também foi debatida em nações europeias, por exemplo. Ela lembra que a Escócia foi o primeiro país a distribuir absorventes gratuitamente e levantar a consciência de que esses produtos pesam no orçamento mensal. 

Entre outros países que seguiram a medida, o Brasil recentemente implementou um programa de dignidade menstrual. Segundo o governo brasileiro, a iniciativa deve “promover a conscientização sobre a naturalidade do ciclo menstrual e a oferta gratuita de absorventes higiênicos”.

O Ministério da Saúde quer garantir a distribuição gratuita e continuada de absorventes higiênicos para cerca de 24 milhões de pessoas beneficiadas, que estão entre 10 e 49 anos, e que não têm acesso aos itens durante o ciclo menstrual.

Em 2021, um levantamento do Unfpa e Unicef apontava que 713 mil meninas viviam sem acesso a banheiro ou chuveiro em seu domicílio e mais de 4 milhões estavam desprovidas de itens mínimos de cuidados menstruais nas escolas.

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