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Clima e Meio Ambiente

COP28: Ativistas pedem financiamento climático para os mais vulneráveis

Cerca de 3,5 bilhões de pessoas, quase metade da população global, vivem em zonas altamente vulneráveis às alterações climáticas

04 Dez 2023 - 23h00Por ONU News
O grupo da sociedade civil com sede no Nepal, Digo Bikas Institute, realiza uma ação sobre perdas e danos durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, COP28, em Dubai, Emirados Árabes Unidos - Crédito: COP28/Christopher Edralin O grupo da sociedade civil com sede no Nepal, Digo Bikas Institute, realiza uma ação sobre perdas e danos durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, COP28, em Dubai, Emirados Árabes Unidos - Crédito: COP28/Christopher Edralin

Nesta segunda-feira, a 28ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, COP28, abrigou discussões sobre apoio financeiro.

Ativistas de várias partes do mundo compartilharam os impactos devastadores das perturbações climáticas nas suas comunidades, destacando que os fundos devem priorizar os mais vulneráveis, especialmente jovens e mulheres. 

No evento, a cantora e rapper senegalesa Oumy Gueye contou que passou a se dedicar à ação climática quando a casa de seus avós em Bargny, a leste da capital do Senagal, Dakar, foi destruída pela elevação do nível do mar

No evento, a cantora e rapper senegalesa Oumy Gueye contou que passou a se dedicar à ação climática quando a casa de seus avós em Bargny, a leste da capital do Senagal, Dakar, foi destruída pela elevação do nível do mar - Foto: ONU News/Dominika Tomaszewska-Mortimer

 

Parceria no Sahel

No evento, a cantora e rapper senegalesa Oumy Gueye contou que passou a se dedicar à ação climática quando a casa de seus avós em Bargny, a leste da capital do Senagal, Dakar, foi destruída pela elevação do nível do mar. 

Ela tem colaborado com o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU, Ocha, para defender causas humanitárias no Sahel, uma das emergências humanitárias de crescimento mais rápido no mundo.

A cantora faz parte do projeto 'My Sahel' com outros cinco grandes artistas da região. Juntos, eles lançaram uma música cujos rendimentos são divididos entre os artistas contribuintes e o fundo humanitário gerido pelo Ocha para a África Ocidental e Central.

Em declarações à ONU News, ela descreveu a situação em seu país. O aumento das temperaturas e, no caso do Senegal, o nível do mar estão destruindo meios de subsistência e casas, provocando a pobreza, a violência e alimentando a migração através de rotas perigosas. 

Ela afirmou que “os jovens correm o risco de viajar por mar em busca de uma situação melhor” e acrescentou que alguns perdem a vida, o que representa “uma tragédia para as comunidades e para o futuro dos seus países”.

Nova conta de ação climática 

O impacto humanitário da crise climática é outro tema de destaque em Dubai, cidade que acolhe a COP28. Como parte do Fundo Central de Resposta a Emergências da ONU, Cerf, o Ocha lançou uma Conta de Ação Climática na COP28.

O objetivo é fornecer uma via adicional para financiar respostas humanitárias a desastres relacionados com o clima, como inundações, secas, tempestades e calor extremo, e construir resiliência.

Todos os anos, entre um quarto e um terço do financiamento do Cerf vai para catástrofes relacionadas com condições meteorológicas extremas. 

A vice-chefe da Ajuda de Emergência da ONU, Joyce Msuya, sublinhou a importância de aumentar este financiamento à medida que o mundo avança para ums situação “em que as alterações climáticas seguram a espada de Dâmocles sobre um número crescente de pessoas”. 

De acordo com o Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, Ipccc, cerca de 3,5 bilhões de pessoas, quase metade da humanidade, vivem em zonas altamente vulneráveis às alterações climáticas. 

A vice-chefe da Ajuda de Emergência da ONU, Joyce MsuyaA vice-chefe da Ajuda de Emergência da ONU, Joyce Msuya - Foto: COP28/Mahmoud Khaled

 

Trilhões em danos 

O clima extremo tem um custo extremamente alto, como mostrou um relatório da Organização Meteorológica Mundial, OMM, publicado no início deste ano.

De acordo com o levantamento, entre 1970 e 2021, cerca de 12 mil desastres relatados devido a eventos meteorológicos, climáticos e hídricos extremos causaram US$ 4,3 trilhões em perdas econômicas, a maioria delas em países em desenvolvimento. 

Para apoiar os países vulneráveis para que estejam protegidos das piores consequências das perturbações climáticas, o Fundo para Perdas e Danos acordado na COP 27 em Sharm el-Sheikh no ano passado e operacionalizado no dia de abertura da COP 28 foi aclamado como um instrumento fundamental de justiça climática e o primeiro grande resultado da reunião. 

Mais de US$ 650 milhões foram prometidos até agora e os defensores das comunidades vulneráveis presentes em Dubai sublinharam a necessidade de garantir que os mais afetados se beneficiem do financiamento.

Pessoas vulneráveis ‘no fim da fila’

Uma proporção crescente das mais de 110 milhões de deslocados em todo o mundo são forçadas a fugir das suas casas devido a perigos relacionados com o clima. 

O chefe da Agência de Refugiados da ONU, Filippo Grandi, disse que “a voz dos deslocados por esta emergência deve ser ouvida e deve ser incluída nos planos e na alocação de recursos”. 

O chefe da equipe climática do Ocha, Greg Puley, disse aos participantes da conferência na segunda-feira que é uma “grave injustiça” que as pessoas na linha de frente da crise climática, que são as menos responsáveis por ela, muitas vezes se encontram “no final da linha” para o financiamento.

As mulheres defensoras das comunidades afetadas estiveram em destaque em um evento na segunda-feira na COP28, organizado pela Agência da ONU para os Refugiados, Acnur, e pela Organização Internacional para as Migrações, OIM e parceiros. 

Joelle Hangi, da ONG Plataforma Global para Ação, descreveu os desafios que enfrentou enquanto vivia no campo de Kakuma como refugiada da República Democrática do Congo. 

Moçambique foi atravessado por 11 ciclones desde 2015Moçambique foi atravessado por 11 ciclones desde 2015 - Foto: © Unicef/Ricardo Franco

 

Vivendo no escuro

A ativista destacou a falta de acesso à eletricidade como um dos maiores obstáculos, uma realidade enfrentada por mais de 94% das pessoas deslocadas e que poderia ser mitigada por uma maior utilização de energias renováveis.

Joelle Hangi disse que a “escuridão” significa não estar seguro. Ela afirma ter visto muitas pessoas que não conseguiram aproveitar oportunidades que poderiam mudar as suas vidas apenas porque não havia acesso à eletricidade”. 

A ativista atualmente trabalha para mudar esta realidade para as pessoas deslocadas, ajudando a melhorar a conectividade à Internet e apoiando a transição para opções de cozinha limpa.

Mitigação em Moçambique

Em entrevista para a ONU News, Caroline Teti, participante da COP28 e membra da organização humanitária Give Directly, sediada em Nairobi, que colabora com o Acnur nas respostas aos refugiados, destacou a natureza fortalecedora das transferências diretas de dinheiro para as pessoas que sofrem os impactos da crise climática. 

Ela deu o exemplo de um projeto em Moçambique que permitiu o envio de dinheiro às comunidades uma semana antes do ciclone Freddy desencadear cheias massivas sobre o país da África Oriental no início deste ano. 

A ativista explicou que os habitantes das zonas de risco “puderam começar a se preparar para sair, comunicar com os seus familiares para se prepararem para as inundações, e começar a reforçar as suas estruturas para não serem arrastados pela água”.

Ela também descreveu um projeto em curso no Malaui, onde pessoas vulneráveis ao clima receberam transferências de montante fixo de US$ 800 para que pudessem sair de áreas de risco em direção a locais mais elevados.

A ativista ressaltou que “se investimentos forem feitos na mitigação climática, poderemos implementar soluções baratas, rápidas e simples que podem contribuir muito para responder a alguns dos desafios climáticos”.

'Humanitarismo inovador'

Os defensores do clima apelam também por uma mudança para um “humanitarismo mais inclusivo e inovador”, que aproveite a experiência das deslocados no desenvolvimento de soluções e ajude a “acabar com o círculo de dependência”.

Fazendo eco a este apelo, o chefe do Acelerador de Inovação do Programa Mundial de Alimentos, PMA, Bernhard Kowatsch, disse à ONU News que “as inovações podem mostrar um sinal de esperança também a curto prazo e provar que a mudança é possível, já agora”. 

Ele disse que é necessário muito mais investimento em novas iniciativas de alto impacto que possam ajudar a mitigar as consequências mais graves das alterações climáticas. 

Um dos exemplos são projetos do Acelerador de Inovação do PMA que alavancam seguros privados em benefício de pequenos agricultores ou lhes permitem tomar decisões de adaptação climática com base em imagens de satélite e inteligência artificial.

Outras abordagens usadas são empréstimos de microfinanciamento para as mulheres agricultoras e empreendedoras mais afetadas por desastres climáticos e excluídas do financiamento tradicional.

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