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Como a China está se tornando uma potência por reconstruir o mundo

18 Dez 2018 - 15h30Por da Redação
Como a China está se tornando uma potência por reconstruir o mundo - Crédito: Arquivo Crédito: Arquivo

Sete represas geram quase metade de toda energia do Camboja, país do Sudeste Asiático. A China construiu e pagou por todas elas. A represa Kamchay, na província de Kampot, no sudoeste do país, é uma delas: com uma barragem de 33 metros, é a quarta maior fonte de energia local.

O Sri Lanka, na mesma região, emprestou mais de US$ 1 bilhão (R$ 3,9 bilhões) da China para construir um porto de águas profundas estratégico, em Hambantota, a 228 km da capital Sri Jaiavardenapura-Cota, mas não conseguiu pagar a dívida. Para não dar um calote, o governo do país entregou o controle do porto aos chineses, que agora possuem um contrato de administração de um século.

A África do Sul pediu US$ 1,5 bilhão (R$ 5,8 bilhões) para a China com o intuito de construir uma grande usina de carvão em Medupi, na província de Limpopo. Ela é uma das cerca de 63 plantas do mesmo tipo financiadas pelos chineses ao redor do mundo que, juntas, poluem o ar mais do que toda a Espanha.

Ainda na África, quando a Zâmbia pegou US$ 94 milhões (R$ 367 milhões) da China para construir um estádio de 50 mil lugares em sua capital, Lusaka, os habitantes da cidade viram um terreno vazio se encher de máquinas de solda, betoneiras, caminhões e peças de concreto que se transformaram no gigante Heroes National Stadium. A arena é apenas mais um entre os cerca de 600 projetos pelo planeta que os chineses financiaram com o propósito de fazer novos amigos e desenvolver mercados.

Todos esses exemplos fazem parte de uma visão chinesa de construir uma vasta rede global de comércio, investimentos e infraestrutura que vai remodelar as relações financeiras e geopolíticas - e levar o resto do mundo para perto de Pequim.

Uma reportagem recente do jornal britânico The Guardian afirmou que a China empreende hoje uma "versão moderna do Plano Marshall", o projeto dos EUA de reconstruir a Europa depois da Segunda Guerra Mundial que criou os alicerces de alianças diplomáticas e militares entre as duas regiões. "A estratégia chinesa é mais ousada, mais cara e muito mais arriscada", continuou o periódico.

Uma investigação feita recentemente por órgãos internacionais mostrou que o dinheiro usado para as construções não necessariamente tem origem legal. Os custos, para a China e seus devedores, também podem ser ainda maiores do que os propagados. Para o The Guardian, os mais de 600 projetos executados pelos chineses na última década pelo mundo mostram o escopo e a motivação da estratégia de Pequim.

Os 41 oleodutos e outras infraestruturas petrolíferas e de gás vão ajudar, por exemplo, a assegurar recursos valiosos para o consumo chinês. As 203 pontes, estradas e ferrovias criam novos caminhos para a China movimentar seus bens pelo planeta, enquanto as 199 usinas - nucleares, de gás, de carvão e renováveis - dão aos chineses novos mercados para suas construções e para as empresas do país.

Segundo o jornal New York Times, a China financiou projetos em 112 países ao redor do globo na última década. Ainda que a maioria deles seja parte do plano conhecido como "Belt and Road Initiative" (chamada no Brasil de "Nova Rota da Seda"), Pequim saiu para além de suas fronteiras no passado recente. Depois de anos a melhorar a infraestrutura local, o país saiu pelo mundo fazendo o mesmo, principalmente com as usinas hidrelétricas.

As duas futuras maiores geradoras de energia do mundo são obras chinesas: a usina de Hidroituango, na Colômbia, que vai gerar 2,4 mil megawatts/hora (Mwh), e a de Caculo Cabaça, em Dondo, na Angola, que vai gerar 2,1 mil Mwh. Atualmente, a maior usina do mundo é a Hoover, entre os estados de Nevada e Arizona, nos Estados Unidos, com capacidade para 2,08 mil Mwh.

Os objetivos, porém, também são geopolíticos: a China precisa de novos amigos e de pontes literais que possam ajudar nesse propósito. Grandes portos no Paquistão, no Sri Lanka e na Malásia - três dos países com as maiores reservas de petróleo e as principais rotas de comércio do Sudeste Asiático e da África - podem se tornar centros navais de logística dos chineses.

Pequim focou pesadamente nos seus vizinhos, emprestando dinheiro para grandes projetos infraestruturais. O Paquistão, por exemplo, está cortando gastos para pagar os financiamentos, parte de um padrão externo ao qual críticos da China chamam de diplomacia da "armadilha do débito".

A China, porém, tem uma visão diferente quando se trata de trabalho e de restrições ambientais: para projetos além-mar, as empresas chinesas levam seus próprios funcionários aos milhares, o que acaba por gerar outras reclamações de que, apesar das construções, os acordos não ajudam a criar empregos locais. Os padrões de segurança também são criticados. "Pequim continua a exportar tecnologias poluidoras, como usinas de carvão, mesmo que esses projetos já sejam impopulares na China", disse o jornal The Guardian.

Governos ocidentais e multinacionais geralmente evitam países politicamente voláteis, mas a China não se importa com esses riscos, emprestando muito dinheiro para países como Venezuela, Nigéria e Zimbábue. Os financiamentos, porém, não são grandes. Países que entram em problemas financeiros podem renegociar suas dívidas, ainda que aumentem mais seus débitos. Alguns projetos acabam parados. O Equador, por exemplo, gastou cerca de R$ 3,8 bilhões para preparar um terreno para uma refinaria chinesa de US$ 12 bilhões (R$ 46,9 bilhões) que deveria ficar pronta em 2013. A obra está parada.

 

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