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Cultura

Música e marketing podem reforçar ou romper estereótipos sobre o Brasil no exterior

O marketing é uma ferramenta para artistas brasileiros se projetarem na cena musical internacional, mas também tem o poder de fortalecer ou romper com clichês acerca do País

26 Mai 2022 - 18h30Por Ana Paula Medeiros, Jornal da USP
Os estereótipos nascem em decorrência de interesses econômicos e políticos de dominação entre nações - Crédito: Fotomontagem feita por Guilherme Castro/Jornal da USP com imagens de Flickr, Unsplash, YouTube e Wikimedia CommonsOs estereótipos nascem em decorrência de interesses econômicos e políticos de dominação entre nações - Crédito: Fotomontagem feita por Guilherme Castro/Jornal da USP com imagens de Flickr, Unsplash, YouTube e Wikimedia Commons

Muitos cantores sonham em conquistar carreiras internacionais. No Brasil, nomes como Carmen Miranda e Tom Jobim conseguiram, de alguma forma, ascensão no exterior com suas criações. Durante esse processo, estratégias de marketing são usadas. Alguns artistas hoje, como a Anitta, cantam em outros idiomas e referenciam o Brasil lá fora para afirmar sua identidade nacional e atingir um grande público.

É nessa parte que entra uma discussão: como o Brasil é visto no exterior e como os artistas podem acabar reforçando os estereótipos acerca do País lá fora? Para começar, a doutora em História Social pela USP, Juliana Pérez González, exemplifica alguns clichês brasileiros, como o futebol, o samba, o clima de festa e a natureza verde.  

Horacio Gutiérrez, professor de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, cita outros mais “pesados”, os quais dão origem a preconceitos em relação à população indígena e negra e a atitudes racistas para com os jogadores de futebol. 

De onde surgem os estereótipos

Gutiérrez comenta que os estereótipos nascem em decorrência de interesses econômicos e políticos de dominação entre nações. “São formados a partir de preconceitos de classe, gênero, raça, orientação sexual e também de diversos nacionalismos que mudam ao longo do tempo”, complementa. Juliana acrescenta que se originam pela repetição de associações generalizadas sobre um grupo de pessoas e pelo desconhecimento profundo da cultura delas.

Músico e doutor em Antropologia Social pela USP, Meno Del Picchia comenta que, até a segunda metade do século 20, era importante e estratégico formar uma identidade nacional na música e em outros campos da arte por causa das fronteiras entre países. Mas ele reflete que, com a internet e a globalização, há hoje uma “desterritorialização” de aspectos sonoros e, assim, as fronteiras nacionais perderam a força. “Hoje eu não vejo tanta necessidade de o artista se afirmar como brasileiro, americano, nigeriano ou seja qual for a nacionalidade dele”, opina. 

Carmen Miranda, durante a sua carreira nos Estados Unidos, se afirmou como brasileira  e latino americana  e ajudou a construir uma imagem acerca do Brasil. Frutas e verduras tropicais são elementos facilmente associados à cantora, e suas apresentações introduziram o Rio de Janeiro como um lugar exótico, de festas, belezas naturais e alegria, como lembra Juliana.  

Hoje a Anitta é uma das artistas com maior projeção internacional e, recentemente, fez uma apresentação no festival americano Coachella, onde referenciou alguns símbolos do Brasil, entre eles, o Cristo Redentor, o calçadão de Copacabana e objetos musicais do samba carioca. É possível que isso reforce a imagem já estereotipada do Brasil lá fora? E mais, que resuma o País apenas ao Rio de Janeiro?  

Para Picchia, é uma coincidência que uma artista brasileira tão grande como ela tenha nascido no Rio: “Ela é uma artista que vem do Rio de Janeiro e faz todo sentido para ela se projetar internacionalmente trazendo o seu lugar”. Ele complementa: “Se artistas de outras regiões começarem a trabalhar sua carreira internacional, talvez a gente comece a ter esse Brasil mais heterogêneo”.

O Brasil e a América Latina

Outro ponto é a mistura da língua portuguesa com a espanhola na música, com a finalidade de afirmação da identidade latina. Sobre isso, há a possibilidade de solidificar a concepção de que países latino-americanos são “iguais” para algumas pessoas de fora do continente. Gutiérrez afirma: “A língua espanhola na América, Espanha e a língua portuguesa no Brasil, assim como a colonização exercida historicamente por potências europeias diferentes e concorrentes, contribuíram para tornar a imagem dessas regiões como homogêneas”.  

Picchia comenta que o resto do mundo pode tentar encaixar o Brasil e outros países da América Latina em um estereótipo de “música latina exótica” e tratar como se todos fossem “farinha do mesmo saco”, mas que isso é uma questão mais de preconceitos e de desigualdades do que de questões musicais. “Tem muito a ver com o fato de que a gente [latino-americanos] sempre habita uma zona de terceiro mundo, de subdesenvolvimento, e a gente sempre vai sofrer esse preconceito”, diz.  

O velho e o novo

Para atingir um público internacional já familiarizado com alguns timbres, é frequente fazer referência a músicas famosas e antigas — geralmente do samba e da bossa nova— e utilizar trechos desses hits em seus projetos. Um exemplo recente é a música Girl From Rio, que é um resgate da clássica Garota de Ipanema. 

Mas esses são estilos musicais do Brasil já consolidados lá fora, tanto é que Tom Jobim gravou com outros cantores consagrados internacionalmente e contribuiu para dar uma cara à música brasileira nos anos 50 e 60. Então, o que esse resgate traz de novo? Já o funk, relativamente novo no repertório internacional, é o estilo musical brasileiro mais ouvido lá fora, segundo levantamento de 2019 da plataforma de streaming Spotify. Nesse cenário, por que não investir no funk? 

Segundo o músico e doutor em Antropologia Social, o funk é o estilo musical brasileiro com maior possibilidade de ter força no exterior por ser uma música de caráter inovador, transgressor e inventivo. “E o samba e a bossa nova já foram isso”, adenda. “Se o samba e a bossa nova resgatarem o poder de transgressão e de inventividade, eles podem se tornar interessantes para uma projeção da música brasileira fora do Brasil. Mas se eles não inovarem, todo mundo vai parar de consumir essa música ou vai consumir como uma música do passado”, conclui.   

No fim, utilizar estereótipos em músicas tem um porquê: brincar com identidades nacionais pode ser uma estratégia de comunicação e marketing para atingir as massas. Juliana afirma que, ao mesmo tempo que a publicidade tem o poder de criar estereótipos, ela tem o poder de quebrá-los. Nesse sentido, com a ajuda do marketing, podemos pensar em representar outros aspectos do Brasil que não são tão explorados, como a cultura de outros Estados do País ou mesmo outros estilos musicais.

 

A imagem do Rio de Janeiro

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