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CULTURA

Com espaços fechados, artistas são convidados a fazer produções de graça para Prefeitura

30 Mar 2020 - 12h21Por O PROGRESSO
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O setor artístico de Dourados é mais um que está sentindo ‘na pele’ os efeitos da pandemia do novo coronavírus. Com determinação para fechar os espaços culturais, a alternativa apresentada pela Secretaria Municipal de Cultura deixou membros da categoria ofendidos. 

O que a administração oferece como proposta de segurança para estabilidade cultural é que sejam feitas produções de até 30 minutos a serem divulgadas nas redes sociais da Prefeitura de Dourados. Tudo de graça. 

Para o diretor de teatro e presidente do Instituto Sucata Cultural de Dourados, João Rocha, a falta de estratégia da pasta revela “tamanho amadorismo e falta de condição técnica” para sustentar um setor tão importante para a economia local. 

“Nossos espetáculos promovem a economia, desde a contratação de profissionais técnicos e artistas, até a venda de refeições no lado de fora dos espaços. Existem lugares no Brasil que estão enxergando na cultura uma possibilidade de recuperar a segurança econômica, mas aqui a gente já está até acostumado com o amadorismo das administrações públicas”, afirmou Rocha. 

Ao O PROGRESSO, ele contou que a expectativa dos espaços e academias culturais era de que o secretário Wesley Queiroz, responsável pelo departamento, manifestasse preocupação e disposição em colaborar. O que não aconteceu. 

“Acreditamos que iríamos ser procurados para saber quais desafios estaríamos enfrentando, desde as questões de saúde até econômicas. Mas nada disso aconteceu. Essa administração é mais uma que não valoriza uma atuação técnica, representativa”, reclamou. 

Na semana passada, uma carta assinada pela maioria das empresas que promovem cultura em Dourados sugeria à secretaria a antecipação do pagamento do edital que regulamenta o projeto ‘Palco para Todos’, para que nesse momento de crise as escolas e academias conseguissem ‘sobreviver’ sem funcionamento. “Lá na frente nós iríamos retribuir isso com trabalho, com espetáculos, com aulas”, acrescentou Rocha.

Mas, na manhã desta segunda-feira (30/3) a proposta apresentada pela pasta é de que os artistas se dirijam até os estúdios da Prefeitura de Dourados, apresentem-se ao vivo nas redes sociais da administração, como forma de promover o trabalho. No entanto, não há nenhuma contrapartida financeira nisto. 

“Isso foi um insulto para todos. É vergonhoso que num momento em que estamos negociando nossos aluguéis, nossas contas, a Prefeitura nos chame para gravar de graça nos perfis oficiais como forma de promoção do trabalho. Promoção do que, se nossos espaços seguem fechados?”, questiona. 

João Rocha destaca que outras medidas poderiam ser aplicadas como forma de contribuição ao setor, tais como: isenção ou flexibilização de alguns impostos, suspensão da taxa de locação do teatro, que atualmente é de R$ 600 a diária, e outras. 

O QUE DIZ A SECRETARIA DE CULTURA

A reportagem de O PROGRESSO buscou contato com o secretário municipal de Cultura Wesley Queiroz, que reagiu aos questionamento de forma ríspida e grosseira. 

“Vocês não precisam mentir que foram falar com artistas porque sei que a Blanche [diretora do jornal] mandou a fazer a matéria. Ela está no grupo [de contato entre a secretaria e as academias artísticas contratadas pela administração] e recebeu a mensagem de hoje. Assim como aquelas que tratava da suspensão do teatro [matéria produzida por O PROGRESSO no início do mês, confira]”, disse.

Repreendido pelo tom adotado, Queiroz disse que somente iria se pronunciar através da Assessoria de Comunicação da Prefeitura. Segundo o departamento de imprensa, o contrato do programa Palco para Todos, que visa contratar serviços artísticos aos alunos da rede municipal, está na Procuradoria-Geral do Município. Ainda de acordo com a Assecom, barreiras jurídicas podem impedir que o investimento seja antecipado, já que as aulas da Reme estão suspensas. 

Além disso, não há nenhuma outra medida planejada pela Secretaria de Cultura.

NOTA DA DIRETORIA

Diante das alegações utilizadas pelo secretário, a diretora superintendente de O PROGRESSO, Blanche Torres, também diretora do Studio Blanche Torres e artista renomada no cenário cultural douradense, emitiu a seguinte declaração:

“Eu entendo que o momento é dramático, que vidas estão em jogo, mas a cultura e a arte precisam sobreviver. Primeiro porque vão ajudar as pessoas a superarem a tristeza e o isolamento, segundo porque geram empregos e muitas famílias têm sua renda através dessas ocupações. Eu sabia que seria difícil a nossa Prefeitura ajudar neste momento os espaços culturais e escolas, porém nunca pensei que pudessem pedir que trabalhássemos de forma gratuita, num momento onde estamos com as portas fechadas sem saber até quando”.

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