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Dia do Professor

Perseverança, protagonismo e paixão pelo magistério personificam docentes de MS, no Dia do Professor

300 km de barco para chegar na unidade, do celibato ao magistério e personagem de campanha nacional, são alguns dos docentes que representam educação de MS

15 Out 2021 - 15h00
Perseverança, protagonismo e paixão pelo magistério personificam docentes de MS, no Dia do Professor -

Hoje, 15 de outubro, é comemorado, em todo Brasil, o Dia do Professor. A data foi escolhida, pois, em 15 de outubro de 1827, Dom Pedro I, Imperador do Brasil, decretou uma Lei Imperial responsável pela criação do Ensino Elementar no Brasil (do qual chamou “Escola de Primeiras Letras”), e através deste decreto todas as cidades deveriam ter suas escolas de primeiro grau.

Em Mato Grosso do Sul, a Rede Estadual de Ensino (REE) conta no quadro de efetivos e contratados cerca de 17.400 professores ativos, que trabalham nas 347 unidades escolares dos 79 municípios de MS, bem como órgão central (SED) e extensões educacionais.

Desde o início da atual gestão, o Governo de Mato Grosso do Sul, por intermédio da Secretaria de Estado de Educação (SED), trabalha com diversas iniciativas voltadas para a valorização dos professores da REE. Entre as ações, principalmente no período de pandemia, está a oferta de formações pensadas na saúde mental dos nossos profissionais. Essa preocupação resultou na parceria com o Instituto Península e na criação da plataforma Vivescer, disponível para todos os professores do Estado (de todas as redes), e também no Programa Diálogos Socioemocionais, desenvolvido em parceria com o Instituto Ayrton Senna.

Além disso, a valorização dos professores também passou pelo aspecto financeiro. Desde o início da atual gestão, o Governo do Estado trabalhou pela manutenção de um dos melhores salários do País e - hoje - os professores efetivos (concursados) da Rede Estadual de Ensino, recebem R$ 3.723,13 (classificação A1, com carga horária de 20h semanais) e R$ 7.446,26 (classificação A1, com carga horária de 40h semanais).

Coração do Pantanal

Dentre os 17 mil professores, está o profissional de Educação Física, formado na primeira turma da UFMS, campus Pantanal, em Corumbá, Luiz Octavius Rodrigues de Oliveira, 31 anos, concursado na REE em 2013, ao sair da universidade. Ele lecionou, entre 2013 a 2017 na Escola Estadual Dom Bosco como professor efetivo.

“A partir do 2º semestre de 2017, recebi o convite para trabalhar como professor-formador da área de Educação Física na Coordenadoria Regional de Educação de Corumbá (CRE-3), onde consegui absorver e aprender com excelentes profissionais da área da Educação e aprimorar o conhecimento tanto pedagógico quanto administrativo”, lembra professor

Luiz Octávius, em 2019, realizou as provas para direção escolar e coordenação pedagógica, onde conseguiu estar apto nas duas provas, e, hoje, atua como gestor da Escola Estadual Indígena João Quirino de Carvalho Toghopanãa, no município de Corumbá.

“Acredito muito na carreira profissional de professor, nas experiências obtidas enquanto, sala de aula, quanto na função de técnico da SED/MS e agora como gestor de unidade escolar de ensino, no qual, possui uma riquíssima participação cultural, por se tratar de uma escola pública indígena”, salienta.

300 km de barco

A Escola Estadual Indígena João Quirino de Carvalho Toghopanãa tem suas particularidades com relação as outras unidades indígenas, está localizada no coração do Pantanal Sul-mato-grossense, dentro da famosa Ilha Ínsua, na Aldeia Uberaba. A grande diferença está em sua localização, pois trata-se de uma unidade escolar distante fisicamente e logisticamente da secretaria da escola. São aproximadamente 300 km em trajeto fluvial, subindo o rio Paraguai, com apoio da Polícia Militar Ambiental para concluir a travessia.

Toda essa logística e desafios encontrados na natureza exuberante do Pantanal, reflete na educação e no acreditar na educação com uma ótica para um brilhante futuro. Os professores e coordenação pedagógica permanece por 2 meses na unidade, até o retorno no fim de cada bimestre, e em seguida, o retorno para mais 2 meses, para o início de um novo bimestre.

Toda essa sequência durante o ano escolar, fortalece ainda mais o espírito pedagógico, em mostrar e aplicar uma educação cada vez mais digna e humanizada aos alunos, “Temos hoje, no quadro de professores 7 indígenas, 2 professores brancos e o coordenador pedagógico também indígena, o que reflete a importância da permanência da educação em um lugar tão remoto, e ainda assim, colher bons frutos”, relata Luiz Octavíus.

Na Aldeia Uberaba, há aproximadamente 60 famílias morando e vivendo na região, com seus costumes, culturas e tradições, o que enriquece a interculturalidade e interdisciplinaridade. “São momentos que trazem reflexões sobre o que desejamos enquanto profissionais da educação, o que nos motiva a permanecer lecionando”, enfatiza.

O diretor lembra que as experiências conquistadas, e por algumas vezes árduas, “favorece cada vez mais a tornamos melhores professores, melhores cidadãos. É gratificante estar hoje, por experiência própria, na EE Indígena João Quirino de Carvalho Toghopanãa, onde a comunidade indígena Guató abraça a escola como parte de si”, finaliza.

Do celibato para o Magistério

Aos 24 dias do mês de novembro de um mil novecentos e cinquenta e um, no distrito de Montese, em Itaporã, nascia o sexto filho, de 10 irmãos, Geraldo Cornelia Angelico, filho de Nestor José e dona Cecilia, casal vindo de Minas Gerais para os campos mato-grossenses.

“Não lembro quando entrei na escola, mas minha trajetória escolar pode ser assim resumida: em 1965 estava na 4ª série e tinha passado pela Escola Rural Mista São Francisco, Escola Rural Mista do Baixo Sardinha e depois voltei para a São Francisco de novo, todas elas multisseriadas, por isso mista, misturada. Não havia merenda, cada um levava sua marmita; não tinha onde colocar a marmita, quando a gente levava. Tinha que escondê-la na moita de colonião. Alguns colegas sacanas iam ao sanitário, que era chamado de casinha. Na volta, colocava cocô de cavalo dentro dela. A escola era situada dentro de uma pastagem. Uniforme? Tinha mais ou menos”, lembra com carinho Geraldo.

No ano de 1966 foi convidado pelos padres franciscanos para ir para o Seminário Santo de Rio Brilhante, onde cursou da 4º até a 7ª Série, permanecendo até 1969. Em 1970 cursou a 8º série, e os três anos do Ensino Médio no Seminário Santo Antônio de Agudos (SP). No ano de 1974, foi de preparação para a vida religiosa na cidade de Rodeio, Santa Catarina.

Geraldo, em 1975 iniciou estudos de Teologia e Filosofia no Instituto Filosófico e Teológico de Petrópolis (RJ), permanece lá até o 5° ano de Teologia, em 1979, mas desiste do sacerdócio, voltando para as origens. Em 1980 cursa Pedagogia no CEUD/UFMS até 1984, onde ao mesmo tempo exerce função de Assistente Administrativo na Prefeitura Municipal de Dourados, trabalho em escolas municipais com música infantil e depois Professor Responsável (Diretor) da Escola Municipal Antônia Cândida de Melo, no Parque das Nações II.

Em 1985 Assume a função de Supervisor Escolar na Escola Estadual Maria da Glória Muzzi Ferreira, até outubro de 1999, neste intermédio, de 91 a 95 cursa Direito na SOCIGRAN. Em 1998 direciona Escola Maria da Glória Muzzi Ferreira.

“Uma dúvida que tinha era a seguinte: Será que a escola, para cumprir suas funções, precisa de concentração de poder por parte do Diretor? Em 10 meses de trabalho, e priorizando a Direção Colegiada, pude experimentar a realidade de que o Diretor não precisa ficar com todas as chaves da escola no bolso, desconfiado dos colegas de trabalho. Se ele ficar doente, a escola não para; se se atrasar, não fica sem merenda por falta de chave do depósito de alimentos”, enfatiza Geraldo Angelico.

De 1999 a 2001 exerce a função de assessoria jurídica na Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Mas em 2002 foi o marco em sua vida, iniciou sua trajetória na Escola Estadual Antonia Silveira Capilé, onde não faz questão alguma de esconder seus sentimentos de carinho e estima pela unidade escolar e sua atual direção. Geraldo aposentou em 2019 na EE Antonia Capilé.

“Inicialmente procurei a Educação porque trabalhava com pessoas anteriormente nas atividades pastorais aos fins de semana e o currículo estava muito próximo do que já havia estudado. Também, na oportunidade, só havia vestibular para Engenharia Civil e Pedagogia. Não quis esperar o final do Ano para fazer Vestibular de Letras, que queria muito, mas, para não perder mais tempo, entendi no momento que poderia dar uma contribuição para a Educação fazendo Pedagogia”, relata.

“Não é difícil perceber que sou fruto da Escola Integral, e entendo que é o melhor sistema de formação, principalmente para as camadas populares. O nosso país seria muito diferente se os governos priorizassem isso e não tivessem medo de investir em educação, desde os anos iniciais. Eu andei reprovando, não fiz pré-escola, e mesmo assim consegui fazer três cursos superiores. Os estudantes da escola pública também podem muito mais do que fiz. Eles precisam de boas oportunidades de formação, elaborar e executar seus projetos de vida, e não se esquecerem do pensamento que fundamenta a Escola Integral - Não importa de onde você vem. Importa aonde você quer chegar”.

“Os momentos que, no meu entender, foram muito importantes foram: em 1991 com o processo de democratização das escolas estadual com eleições par Diretores e Colegiado Escolar. O último, com a implantação da escola integral em tempo integral, com todas as suas metodologias e fundamentos, investimento na formação dos profissionais da educação.  O que pude perceber é que, quando a escola dá um pouco de oportunidade, os estudantes respondem”, enfatiza Geraldo

“Consegui chegar até onde cheguei, graças ao estímulo de meus pais e da Igreja. De outra forma, não sei o que seria. Apesar de minha mãe ter sido analfabeta e meus pais não terem frequentado escola, dos 10 filhos, os que estudaram menos terminaram o Ensino Médio. E ele nos dizia: “Vocês estudem. Vejam minha situação. Enxada nunca desincha”, ou “Não precisam se preocupar de estudar bastante, porque o saber não ocupa lugar”, lembra com carinho o hoje professor aposentado Geraldo Angelico.

Educação à flor da pele

Leila Aparecida da Silva, mulher, negra, mãe, avó, integrante da comunidade quilombola Furnas do Dionísio, no município de Jaraguari, leciona há 23 anos na Escola Estadual Zumbi dos Palmares e trabalha com a diversidade da localidade e enfatiza a cultura local.

Formada em Letras, Especialista em Linguagens Clássicas e Contemporâneas, atualmente exercendo a função de coordenadora pedagógica, escritora, poetisa, umbandista, microempeendedora e em breve terapeuta e psicanalista (finalizando esses cursos).

“Quando criança minha brincadeira preferida era escolinha onde eu sempre era a professora. Sempre gostei de ler e escrever.  Já era um sinal do universo, no entanto, na minha inocência de criança, sonhava em ser médica. Filha de pais separados e com minha mãe tendo apenas a quarta série, tornei-me autodidata e aprendi a ler com 6 anos de idade”, lembra.

Em 1998 Leila começou a trabalhar como secretária escolar e em 2000, ao substituir uma professora, sua paixão pela educação aflorou de vez e decidiu que ser professora era sua missão “ dentre tantas inspirações destaco a importância de exercer uma profissão que é responsável por formar todas as demais. Mesmo não sendo valorizada como deveria. Ser professora é um ato de amor e dedicação ao próximo capaz de transformar a sociedade”, destaca Leila.

Leila Silva integrou recentemente exposição que apresentou professores de todas as regiões brasileiras em 22 fotografias inéditas, feitas em parceria com o fotógrafo Sergio Santoian e a maquiadora Louise Helène, no projeto do Instituto Península “Educação à Flor da Pele”.

Para as fotos, cada professor teve uma palavra “tatuada” com tinta removível no próprio corpo, representando as palavras que mais de 1,1 mil educadores de todo o país mais desejam para a profissão: valorização, reconhecimento, respeito, amor e carreira.

Leila tatuou a palavra “Respeito – Assim como eu tenho o hábito de respeitar tudo e todos, quero que esse respeito também seja direcionado a mim, enquanto, mulher, enquanto negra, quilombola, mãe, avó. Respeito é a base para o ser humano e a Educação abre os horizontes, ela é essencial e na essência somos todos iguais, ao contrário a alma torna-se um abrigo em ruínas”, enfatiza Leila.

Estas palavras foram retiradas da pesquisa “Valorização da carreira docente: um olhar dos professores”. Para 77% dos professores, a profissão ainda não é valorizada pela sociedade. Apesar disso, 90% afirmam que sentem orgulho de serem professores. Outros resultados da pesquisa realizada pelo Instituto Península em setembro podem ser conferidos na mostra, junto às fotos, bem como o perfil de cada professor fotografado. A pesquisa completa está disponível para download gratuito no site do Instituto Península: www.institutopeninsula.org.br

Pequena História de um Professor

“É natural que alguém me questione sobre o que me levou a ser professor. Também é natural que eu responda que já estava escrito no meu diário de bordo que, ao vir ao mundo, trouxe comigo”, lembra  professor Elçon José de Oliveira, 69 anos.

Elçon chegou ao mundo aos 25 de janeiro de 1952, “estava com quase seis anos quando minha mãe partiu, a chamado de Deus. Passei a morar com minha tia materna. Família semianalfabeta, decidem mudar para Três Lagoas. Era agosto de 1958. Lembro dos meus primeiros anos escolares. Aos 7 anos ingressei na escola. Minha professora se chamava Hebe Caputti de Lima. Amava a escola e aquela minha professora. Ainda conservo provinha da época. Tenho também uma foto, com o cabelo penteado por ela”, relata.

Suas lembranças de adolescência ainda são frescas “Aos 11 anos trabalhava em uma cerâmica de telhas francesas, de manhã no Ginásio e à tarde na Cerâmica Colinos, em Três Lagoas. Aos 15, era servente de pedreiro durante o dia; ao cair da tarde, fazia um curso de datilografia e, à noite, o Curso Técnico em Contabilidade. Era 1967. Naquele ano consegui meu primeiro emprego dito intelectual. Primeiro, no escritório de um advogado. Seis meses depois, a convite de um amigo, passei a trabalhar em uma filial da Metalúrgica Atlas”, lembra.

Em 1970, aos 18 anos frequentava o Centro Pedagógico de Três Lagoas, um braço da UFMS. Começava então a sua vida no magistério. Exerceu o ofício durante 4 anos, pois viera para Campo Grande, transferido pela empresa na qual trabalhava.

“Aqueles 4 anos exigiram de mim muita perseverança. Imagine um garoto de 18 anos, trabalhando à noite, enquanto outros “aproveitavam a vida”. Três Lagoas não oferecia transporte urbano, de forma que o meu veículo era uma bicicleta: para o trabalho diurno na empresa e, à noite, para o Centro Pedagógico e a Escola Estadual de Comércio, onde eu lecionava. Às vezes chovia, ventava. Não era fácil. Sábados e domingos eram reservados para atividades escolares. Mas foi um alicerce bem construído”.

Em 1977, encontrava-se em Rondonópolis. Após dois anos no magistério, pois fora transferido para a cidade de São Paulo. Galgava posto na empresa. “Em1985, depois de quase 18 anos, resolvi romper com a Metalúrgica Atlas. Voltei para Campo Grande. Voltei a lecionar na Escola Estadual Rui Barbosa, de 1986 a 1989. Resolvi parar. Meus filhos estavam crescendo. Ressentia, pois durante o dia tinha outra atividade e, à noite, o magistério”.

Em 1993, a pedido da direção da EE Rui Barbosa, retornou, mas somente para concluir o ano letivo. Ano de 2000, trinta anos passados da primeira vez que pisou numa sala de aula, resolveu sentar base no magistério. Estava maduro. 48 anos. “Compreendi a existência da missão que me trouxe ao mundo. Assim, trabalhei 7 anos no Hércules Maymone; 5 anos no Emygdio Campos Widal; e 5 anos no Colégio Raul Sans de Matos (Funlec), dentre outros”, lembra com carinho professor Elçon.

Em 200 foi convidado por um amigo que trabalhava na SED, submeteu-se a uma entrevista, concorrendo com professores mais jovens e não ficou esperançoso, pois já estava com 57 anos. Transcorrida uma semana, fura chamado. Colaborava no setor pedagógico e dando formação nas escolas.

Em dezembro de 2014 foi remanejado para o Conselho Estadual de Educação. Lá, lavrava atas das reuniões e outros serviços. Regressa à SED em dezembro de 2015, para colaborar na revisão dos expedientes que trafegam na Coordenadoria de Gestão de Documentos (COGED), sob o comando da chefe e amiga Nereida Rondon. Desde então, trabalha com a Língua Portuguesa.

“Sou o vovô da sala, e me sinto muito bem, pois quero bem a todos. Aqui uso a máxima: Ame, se quiser ser amado. Assim, é como se estivesse em minha casa. E estou mesmo”, conclui professor Elçon.

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