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Discriminação

Falta de democratização dos meios de comunicação leva a preconceitos e discriminações

A escritora Conceição Evaristo observa que mulheres, os pobres, os negros, as comunidades indígenas e as comunidades quilombolas não usufruem democraticamente das ferramentas digitais disponíveis para os mais ricos

11 Jul 2022 - 08h45Por Jornal da USP no Ar 1ª Edição
A grande questão relacionada à democratização dos meios de comunicação passa pela dificuldade que determinados grupos sociais têm para acessá-los - Crédito:  Pixabay/Fotomontagem Jornal da USPA grande questão relacionada à democratização dos meios de comunicação passa pela dificuldade que determinados grupos sociais têm para acessá-los - Crédito: Pixabay/Fotomontagem Jornal da USP

Evento do Instituto de Estudos Avançados da USP, que acontece no dia 12 de julho, irá promover uma discussão sobre as diferentes formas de discriminação racial, de gênero e de classe. Em entrevista ao Jornal da USP no Ar 1ª Edição, a escritora Conceição Evaristo, uma das mais importantes vozes da literatura contemporânea brasileira e nova titular da Cátedra Olavo Setubal de Arte Cultura e Ciência, discorre sobre o 2º Encontro Intercátedras do IEA, que também contará com a participação de Ruha Benjamin, socióloga americana e professora do Departamento de Estudos Afro-Americanos da Universidade de Princeton. O encontro irá abordar como as ferramentas digitais contribuem para a perpetuação de preconceitos e atos discriminatórios.

Para Conceição, a grande questão relacionada à democratização dos meios de comunicação passa pela dificuldade que determinados grupos sociais têm para acessá-los: “Ter um bom canal requer dinheiro, você tem que ter capital para movimentar e quem tem esse capital são as pessoas que têm um poder aquisitivo bastante grande. Então, as mulheres, as pessoas pobres, as pessoas negras, as comunidades indígenas e as comunidades quilombolas não usufruem democraticamente desses meios de comunicação.”

As pessoas que têm a possibilidade de utilizar esses meios têm o poder de veicular seus discursos. “Quem tem um espaço de fala muitas vezes são essas pessoas. Então, elas aproveitam de uma estrutura montada, por exemplo, para fazer uma fake news. Também acredito que essas pessoas que hoje estão agredindo negros, agredindo pobres através da mídia ou agredindo até artistas negros, têm muito a ver com esse sistema capitalista, que permite acessos para uns e nega acesso para outros”, aponta a escritora.

A tecnologia pode ajudar, mas sendo bem aproveitada e bem dirigida, comenta Conceição: “Hoje tem a possibilidade de você falar uma besteira e esconder seu rosto ou ir com um perfil falso. Há uma certa impunidade, o racismo é crime, mas as pessoas sabem que não são punidas severamente. A homofobia é crime, mas as pessoas parecem que não são penalizadas, então, elas acreditam que vão passar impunes por essas situações e fazem o que querem”.

Troca de experiências

A escritora acredita que pode haver uma troca intensa no contato com Ruha Benjamin. “Mesmo ela sendo afro-americana e eu sendo brasileira, há muitos pontos em comum em função da colonização ou em função da escravização. Então, a experiência de uma mulher negra americana, a experiência de uma mulher negra cubana e a experiência de uma mulher negra haitiana são experiências que se confundem com as de uma mulher negra brasileira. Mesmo quando elas divergem são tão interessantes que aprendemos muito umas com as outras”, realça.

Conceição também enfatiza a questão de gênero. Ela conta que, mesmo na luta do movimento negro, a participação das mulheres foi apagada: “O protagonismo das mulheres negras sempre existiu na luta contra o racismo. Você ouve muito falar de Luther King, mas pouco de Coretta King, você ouve muito de Nelson Mandela, mas pouco de Winnie Mandela. Aliás, a história tem um memoricídio em relação ao protagonismo das mulheres negras. O fato de hoje as mulheres negras estarem revelando nosso protagonismo é muito importante”. 

O encontro é um momento importante para a Cátedra pela ocupação do espaço por mulheres negras. “A gente vem aí para marcar esse espaço e para fecundar esse diálogo, essa experiência e também essa obrigação da universidade e da própria academia irem além do que o circuito oferece. As universidades hoje têm um papel de se abrirem para o entorno”, ressalta a escritora.

2º Encontro Intercátedras do Instituto de Estudos Avançados acontece às 16 horas da próxima terça-feira, dia 12 de julho. O evento é público, gratuito e será transmitido de forma on-line no site do IEA, que pode ser acessado através deste link (http://www.iea.usp.br/eventos/mulheres-raca-tecnologia).

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