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"É possível ser feliz e ter uma vida normal com o HIV"

Uma das afinidades que uniu o casal Fernando Cruz e Ana Capilé foi que ambos descobriram o vírus, assumiram e tiveram coragem para fazer o tratamento e vencer os preconceitos

02 Dez 2019 - 08h46Por Valéria Araújo
Casal Fernando e Ana superaram obstáculos - Crédito: Carlos Augusto SáCasal Fernando e Ana superaram obstáculos - Crédito: Carlos Augusto Sá
Eles têm uma vida ativa socialmente, trabalham, estudam e fazem muita festa. O casal Fernando Cruz e Ana Capilé decidiu viver a vida plenamente e de forma livre e autêntica. Ele, diretor de teatro, arte-educador e produtor cultural e ela empresária e produtora cultural, se uniram com uma afinidade incomum, ambos foram diagnosticados com HIV.
 
Ao invés de se esconderem por trás do resultado do exame, decidiram romper o silêncio assumindo que tinham o vírus, lutaram pelos seus direitos e conquistaram tratamento que hoje é mais acessível, do que nos anos 90, quando Fernando descobriu a infecção.  Hoje o casal está na fase em que o vírus é indetectável, portanto sem risco de transmissão e vive uma vida normal.
 
Mas nem sempre foi assim. Fernando conta que já teve que encarar o primeiro preconceito assim que descobriu o resultado do exame. “Descobri o vírus entre 1995 e 1996. Era algo meio esperado devido a relação que mantínhamos de forma mais livre. Assumimos que tínhamos. Vimos muitas pessoas próximas chegaram a morrer, pela falta do tratamento, que era recentemente disponibilizado. A surpresa foi ao descobrir que o preconceito não vinha de fora, mas sim de pessoas próximas das nossas relações de amizade, pessoas que se diziam mais descoladas, informadas e alternativas. Tivemos alguns probleminhas como o fato do isolamento ou restrição de que nosso filho brincasse com os filhos dessas pessoas, ou que estudassem na mesma escola; uma situação que levou a gente a mudar de cidade na época e continuar a vida. Deu para descobrir quem era nossos amigos e quem não era”, conta.
 
Segundo Fernando, a descoberta do  HIV na sociedade brasileira ajudou a revelar que o vírus não afetava apenas prostitutas e usuários de drogas, como se acreditava na época. “Pelo contrário, mostrou que atingia qualquer pessoa, de qualquer classe social e que atingiu a sociedade em grandes proporções. Sendo um problema de saúde pública, logo vieram os coquetéis e o tratamento, cuja dificuldade inicial era a adaptação a medicação fortes, com sabores, tamanho de comprimido e  efeitos colaterais fortes, até chegar ao que temos hoje com medicações bem mais compatíveis com o nosso corpo. Pela genotipagem dá para saber quais são mais compatíveis ou não e quais tem mais efeitos colaterais. Tudo isso reduzido a um comprimido e a condição indetectável”, explica.
 
Conforme o diretor de teatro, o segredo é viver bem. “A partir do tratamento pode se ter uma vida normal. É importante ainda ter cuidados alimentares e praticar atividades físicas, bem como manter relacionamentos saudáveis, longe de pessoas tóxicas e ter harmonia interna. O prazer pela vida e pelas coisas que a gente opta em fazer na vida dá condições de ter um corpo saudável e ter reações positivas fisicamente, espiritualmente e emocionalmente dando para viver de maneira positiva”, destaca.
 
Para Fernando o maior problema do HIV hoje é o preconceito que as pessoas têm em fazer uma testagem e assumirem o tratamento. “A visibilidade hoje, ou seja, assumir que tem o vírus,  é a grande saída para se ter uma vida tranquila, um coração tranquilo. Não ter vergonha do que se é, do que se faz e com o que se vive. Isso é fruto da liberdade nos dá condições de seguir em frente de maneira saudável e sem lembrar que convive com o HIV”, destaca.
 
O desafio para Fernando são as políticas públicas adotadas pelo governo brasileiro. “Há um retrocesso no País em que o próprio ministro da Saúde acredita que a transmissão do HIV é uma questão moral. Isso está fazendo com que as campanhas de prevenção e a convivência saudável sejam prejudicadas, principalmente entre os jovens, que são a maioria infectada por não terem visto a epidemia e campanhas de prevenção adequadas e constantes dentro das escolas e nas famílias. A avanço desse movimento pentecostalista é terrível e o moralismo está voltando com o apoio do governo. O grande inimigo hoje é a ausência do estado brasileiro, em sua omissão em relação a epidemia de Aids, Sífilis e outras que estão voltando em grande escala. Isso pode trazer um grande prejuízo a sociedade brasileira. O acesso aos exames e tratamento diminuíram, assim como a camada de assistência médica em outras áreas que complementam o tratamento e que está ficando inacessível, o que tem feito com que várias pessoas desistam após a adesão. Importante ressaltar que o tratamento da Aids nós conquistamos, não foi dado de presente pelo governo. Nós conquistamos com muita militância, e continuamos lutando. Acreditamos que esse governo de trevas vai passar e que nós continuaremos cada vez mais vivos”, destaca.
 
Ao comentar a superação dos obstáculos, Fernando disse que o apoio da família, dos amigos e das pessoas mais próximas foi fundamental. Ele  também inspira coragem.  “A dica é que as pessoas encarem a testagem, o tratamento, que não é um bicho de sete cabeças e que está bem tranquilo e que lutem para não perder os seus direitos ao tratamento, a vida e aos prazeres que a vida nos dá. A liberdade é a coisa mais bela da vida. Não há nada que se compare a ser livre e autêntico. Isso dá dignidade de viver legal”,  recomenda.
 

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