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Superação

Caminhoneira recomeçou a vida na estrada: “Me devolveu alegria de viver”

Débora Ubial diz que trabalhando ao volante é a 1ª vez que se sente feliz e realizada

19 Set 2021 - 13h00Por Gracindo Ramos
“Eu colecionava revista 4 Rodas, gostava de direção” explica Débora sobre a paixão de dirigir - Crédito: Fotos: arquivo pessoal/Débora Ubial“Eu colecionava revista 4 Rodas, gostava de direção” explica Débora sobre a paixão de dirigir - Crédito: Fotos: arquivo pessoal/Débora Ubial

“O que mais marcou foi a gentileza das pessoas, de todos que conversaram comigo. Foram muito simpáticos. E também a comida. Mesmo comendo nos lugares mais simples, era tudo uma delícia”, conta a caminhoneira Débora Ubial sobre sua passagem pelo Mato Grosso do Sul, quando carregou celulose em Três Lagoas. Segundo a CNT (Confederação Nacional do Transporte), mulheres são apenas 0,5% do total de caminhoneiros no país. Hoje, 180 mil mulheres estão aptas a dirigir caminhões no Brasil, conforme o Conselho Nacional de Trânsito. 

Débora tem 37 anos e mora em Foz do Iguaçu (PR). Ela está na estrada há quatro anos. Autônoma, dirige sozinha há pouco mais de um mês. Não conseguia trabalho em transportadoras por ter condenação na justiça, mesmo passando em entrevistas de emprego e testes de direção e aptidão. Ela dividia o volante com o namorado, também caminhoneiro, e chegou dirigir até mesmo no Chile. “Na Cordilheira dos Andes foi um dos momentos mais tensos de todas as viagens até aqui”, avaliou a caminhoneira em entrevista ao O PROGRESSO quando estava em Penápolis (SP), a 700 km de casa. 

Ela é motorista 6 eixos e trabalha com uma Scania modelo 124, com 420cv de potência e câmbio manual, uma carreta graneleira com lona. “Experiência eu tenho, mas emprego mesmo eu não conseguia. Esse tipo de caminhão é difícil ter mulher, porque é muito pesado abrir tampa, lona etc. Lógico, se eu pudesse escolher eu queria trabalhar com tanque ou câmara fria. Dá um terço do serviço que esse daqui. Mas só aqui que eu consegui serviço”, esclarece. 

“Eu venho de uma família muito conturbada. Abusos, espancamento, fui vendida. Meu pai era dono de uma oficina mecânica. Isso influenciou na questão de gostar de automobilismo. Eu colecionava revista Quatro Rodas, gostava de direção, mas eu nunca pude dirigir. Ele dizia que mulher nasceu para pilotar fogão”, contou Débora. Por conta dos traumas de infância, ela teve depressão e passou por dificuldades, incluindo tentativa de suicídio. Acabou sendo presa como ‘mula’ e, após cumprir pena e ter o processo arquivado, decidiu recomeçar a vida.

Débora tem 37 anos e mora em Foz do Iguaçu (PR). Ela está na estrada há quatro anos

“O caminhão me proporciona o direito de erguer minha cabeça de novo. Me devolveu essa alegria de viver, me dá alguma coisa pra eu ter orgulho. Olho pro meu passado e não tenho nada para me orgulhar. Chegar com esse caminhão, encostar ele de ré num galpão, num lugar um pouco mais difícil, e fazer tudo com perfeição, é muito satisfatório. Isso me dá uma alegria. É a primeira vez na vida que eu posso dizer que estou me sentindo feliz e realizada”, disse.

“O dono de uma transportadora me falou que por ele só contrataria mulheres, que a mulher tem uma enorme redução nos índices de acidentes”, enfatiza Débora. Ubial já foi babá, estagiária, recepcionista, auxiliar administrativa e vendedora. E com ajuda de ex-patrões conseguiu a carteira de habilitação D e E. A carreteira possui quase todos os cursos (cargas perigosas, indivisível, transporte de passageiro e emergência, ônibus, manobrista de empilhadeira). O único que não tem é o de transporte escolar. 

Sobre a crise econômica e a pandemia ela diz: - “esse prejuízo acaba ficando com o dono do caminhão. Meu salário continua igual. Não compro mais tudo que comprava antes, mas não posso reclamar do salário de motorista. É o melhor que já tive. Eu moro sozinha, não tenho filho, só resgato cachorro e gato de rua. Se for olhar que tudo aumentou e o salário não, é de certa forma injusto sim. E a nossa cara está a tapa. A gente encontra muito motorista bêbado, muita gente inconsequente. Qualquer erro, é nossa vida que vai. Não é como num escritório onde eu podia errar e corrigir ou perder o meu emprego”. Hoje, se errar, a consequência é um pouco maior”. 

Durante os recentes protestos, ela diz que encostou o caminhão. Ficou parada porque o namorado dono dos veículos teve receio de eventuais situações de truculência. “Da outra vez foi pedido o valor mínimo da tabela do frete. Eu falei que não ia funcionar e não funcionou. Porque nosso país não tem fiscalização. Assim como o bafômetro que eu nunca vi, não sei nem como é que funciona. Com isso, o frete é declarado de forma errada. Os próprios motoristas aceitam frete abaixo para não andar com o caminhão vazio em algumas situações. Se for levar em conta o desgaste do caminhão, o frete ainda está muito baixo. Se o motorista não for responsável, acaba dando prejuízo. É igual carro, se não cuidar, acaba dando muito mais manutenção”, analisa. 

Dificuldades na estrada
“A gente sofre. Muitos lugares só tem banheiro para homens e a gente é obrigada a usar. Eu tenho um pinico na cabine. As colegas que eu converso também têm. Mas tem banheiro que não tem porta para tomar banho. Tem porta que dá direto para a rua, sem tranca, em lugar vulnerável”, alerta. Ela diz que ouve a frase ‘tinha que ser mulher’. “A gente não tem direito de errar. É normal errar, todo mundo erra, mas se eu errar é porque sou mulher, entende? E os caras ficam zuando, gritando, quando estou manobrando”, observa. “Mas quando estou passando perrengue os homens acabam ajudando. E eu sou muito grata pelas ajudas que recebo. Tem muita coisa que não conseguiria fazer sozinha. Carreguei uma carga de tijolo uma vez que deu um problema muito grande, ia cortando e arrebentando as cintas. Um motorista subiu nove vezes na carreta para me ajudar a amarrar a carga. Eu encontro muito mais gente boa que ruim. Seria muito injusto da minha parte falar que os homens fazem isso. A gente encontra um ou outro mau caráter onde a gente vai, mas são poucos”, reconhece.

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