04/03/2013 19h24 - Atualizado em 05/03/2013 07h24

Execução por intolerância é genocídio

 

Wilson Matos da Silva

O assassinato do menor indígena Denílson Barbosa, de apenas 15 anos de idade da Aldeia Tey Kuê, município de Caarapó (MS), é chocante e demonstra o grau de acirramento na luta pela reconquista dos territórios indígenas no Estado de Mato Grosso do Sul. Denílson foi julgado e penalizado com a pena capital, executado, pagou com sua própria vida a intolerância de um dos “senhores” das terras.

O que se pergunta é por que um ser ‘humano’, animal racional em plena capacidade intelectiva, executa um semelhante, adolescente que simplesmente almejava pegar alguns lambaris para saciar a sua fome? Qual o prejuízo? Por que tanta raiva e intolerância? A reposta só pode ser uma: a intolerância gerada pelo processo demarcatório dos tecohas no Estado de MS. No artigo anterior relembramos o que fora dito pelas autoridades que dos diversos es-calões que estiveram na região, e, alertamos que nada de concreto havia ainda sido feito, lembramos na oportunidade, trechos de discursos proferido pelos deputados e senadores que visitaram o Estado. As palavras em tom de indignação era comovente, mas até agora nada de concreto. O que se pergunta é quantos Denílson ainda terão de serem executados, para que se tome uma providência concreta?

O Observatório de Direitos Indígenas – ODIN, tem recebido várias denúncias de que fazendeiros estariam também cooptando e arregimentando indígenas, para efetivar execuções das lideranças indígenas que lutam pela demarcação, no interior das próprias aldeias, as execuções disfarçadas de brigas internas são disfarçadas de violência bebidas alcoólicas ou uso de drogas.

Essa tática de dizimação do povo indígena, é uma velha prática usada pelo colonizador na usurpação de seus territórios, povos inteiros foram dizimados, para a expansão da ‘fronteira agrícola’ e as frase escrita por Oliveira sobrinho no inicio do século passado nunca esteve tão atual: “mas, a soma dos mesquinhos interesses e a cobiça dos invasores das terras dos aborígines; (...)serviram de causa ou pretextos já para negar-se aos índios o direito, ao começo até ‘a vida e a liberdade’, e ao depois as garantias que lhe era outorgadas por lei, já para burlarem-se com subterfúgios e hipocrisias algumas conquistas humanitárias. Tais e tamanhas foram as violência, as atrocidades, as selvagerias cometidas pelos invasores portugueses contra os nossos índios, que sem paradoxo der linguagem, senão com a mais justa expressão, podemos chamar de selvagens os colonizadores que se presumiam de civilizados”. (Oliveira Sobrinho 1928).

Segundo Dionísio Almeida Historiador, esta é uma realidade ainda, e infelizmente dos dias de hoje: as terras dos indígenas são ocupadas por fazendeiros, grileiros e mineradores; centenas de índios foram assassinados e centenas estão presos por defender seus povos e sua cultura. Tudo isso acontece por causa da omissão do governo em criar instrumentos que defen-dam de fato os povos e a cultura indígena; por se aliar aos poderosos grupos econômicos que tem o interesse em desenvolver os seus projetos onde estão localizadas as terras indígenas, no Mato Grosso do Sul por causa da omissão e do compromisso dos governos nas esferas municipais, estaduais e federal com estes mesmos poderosos grupos econômicos.

A incoerência desta situação e realidade é que estamos no século XXI, falam-se muito em respeito aos direitos humanos, em respeito aos povos indígenas, em respeito às culturas e a diversidade cultural e o governo federal toma a atitude de defender os direitos humanos em vários países do mundo e ignora os princípios e os direitos humanos básicos dos indígenas do Brasil: direito as suas terras, direito à educação, direito de se alimentar, direito à cultura e o direito de sobreviver enquanto povo, cultura e seres humanos.

Até quando vamos permitir a execução covarde dos nossos guerreiros? São lideres assassinados a sangue frio de pais de família no caso de Marcos Verón, Nisio Gomes e tantos outros; mulheres como foi o caso da rezadeira Xurite Lopes em Kurussu ambá, professores como Olindo Verá, crianças, como Denílson Barbosa é uma lista interminável até quando! Onde está a providencia?

É Índio Residente na Aldeia Jaguapiru, Advogado OABMS 10.689 Jornalista SRTE 773MS e-mail: wilsonmatosdasilva@hotmail.com