Wilson Matos da Silva
O ano que se finda foi de intensas lutas pela sobrevivência de nossas comunidades. No limiar de um novo ano, os nossos povos reacendem as chamas da esperança, sabedores de que não podemos revolver o passado, mas, precisamos com muita fé, esperar no futuro um amanhã melhor para nós, nossos filhos e para as nossas comunidades, na construção de uma sociedade mais digna, mais fraterna e, sobretudo mais humana.
Ao analisar o passado ainda ontem víamos todos os dias, nossos pais gemerem e chorarem calados e silenciosos a nossa caótica situação. Falta tudo! Alimentos, a refeição básica e sagrada de todos os dias, a saúde, a educação, a escola, a paz, a harmonia. Em tantas e tantas aldeias, os costumes de fora, a “civilização”, no ritmo do progresso invadiu avassaladoramente as nossas vidas nas aldeias. Tornando-nos dependentes de quase tudo: da comida, do vestuário, do transporte, do medicamento e até mesmo das bebidas destiladas!
Nossos filhos(as) pressionam-nos por uma melhor roupa, calçados, óculos, bolsa escolar, lancheira, caderno capa dura e até celular... Não temos condições para supri-los! Assim eles pensam: o jeito é sair pra fora, pra vila, pras colônias e cidades. Assim, muitos curumins e cunhãtaí, partem na mais tenra idade, as imaturidades infantis são desproporcionais com suas necessidades e, com isso, esses garotos e garotas ingênuos ficam presos e à mercê de pessoas inescrupulosas, ganham companhias erradas lhes desvirtuando a mente e o comportamento.
Nesse cenário, roubam-lhes a virgindade, a dignidade, o valor da vida e a oportunidade de viverem essa fase tão bonita e delicada da vida, de forma saudável e com a devida proteção. Desta forma, transformam-se em pequenos delinqüentes, prostitutas, alcoólatras e serviçais. E, assim, ao invés daquela tão sonhada roupa e calçado de grif. No retorno de volta para suas Aldeias trazem consigo a “esperteza” e o mal costume civilizado, disseminando nos seus lares e em suas comunidades, sofrimentos e cargas negativas que, como punhais, atingem em cheio os corações e alma já dilacerada do povo indígena.
Não temos como fugir, querendo nós, ou não, essas nuvens negras nos atingem em cheio e deixam a nossa alma triste e doente, transformando a nossas noites em pesadelos. A dor é tão grande que muitos acabam desistindo de viver, porque nela (vida) não se vê mais sentido ou prazer. Por isso, muitos abreviam a própria vida e buscam o suicídio e outras formas de por fim à sua vivencia.
Essa é uma das facetas que dilacera a infância de nossos filhos e adolescentes. E, o que dizer do nosso isolamento físico e cultural? No passado, nossos pais e avós, creio, eram muito mais felizes do que somos agora. Eram protegidos pelas matas, pelos rios e serras. Eles não se sentiam isolados, mais livres, felizes, seguros, fartos e com saúde.
Mas, para a nossa atual geração, o isolamento é visto como um crime, um abandono, posto que, a chamada globalização nos atingiu e levou para dentro de nossas aldeias poucas coisas boas e muitas, mas muitas coisas ruins, entre elas, muitas doenças, dantes não conhecidas. Ficamos frágeis e suscetíveis diante do fatal etnocídio, portanto, com necessidades que nossos pais não tiveram.
De qualquer modo, a questão é bastante emblemática para todos nós, sem exceção, e, nos força a trilhar novos caminhos, muitos dos quais, desconhecidos, mas o protagonismo indígena é a palavra de ordem no ano vindouro. Feliz 2012 a todos os amigos e leitores.
É Índio residente na Aldeia Jaguapirú, Advogado, (CADI OAB/Dourados), Coordenador Regional do ODINMS (Observatório de Direitos indígenas no MS, E-mail matosadv@yahoo.com.br