Waldir Francisco Guerra
Mais uma vantagem do mundo globalizado: o povo não aceita mais, tanto nos países ricos quanto em países pobres, que algumas poucas pessoas se beneficiem em detrimento de muitas outras.
Assim está acontecendo nos países árabes com seu povo não aceitando mais que ditaduras familiares continuem explorando-o.
Até mesmo na rica Comunidade Europeia onde vários países não conseguem mais pagar suas contas agora seus membros estão exigindo que se acabem os privilégios que se concedem a poucos em detrimento do próprio país. É o caso da Grécia, por exemplo, que não consegue nem mesmo pagar os salários de seus funcionários estatais por conta do empreguismo público.
Mas se você pensa que somente o brasileiro é condescendente com as roubalheiras que vem acontecendo no país pelos maus políticos, que aqui também beneficia alguns poucos em detrimento de milhões de brasileiros, você está enganado.
Vinte mil pessoas saíram à rua para protestar contra isso em Brasília na semana passada, dia 12. Foi um movimento que partiu do povo; não teve participação da UNE – aquela que antigamente representava os jovens estudantes brasileiros. Não participaram partidos de esquerda que antigamente eram os protagonistas de manifestações públicas como aquela. O povo foi convocado pelas redes sociais e atendeu ao chamado – fez lembrar os recentes movimentos nos países árabes.
Enganam-se os que pensam que a próxima manifestação não será ainda maior que essa de Brasília. Tudo indica ser apenas a primeira de muitas outras necessárias para acabar com a corrupção política e impor de vez a aplicação da Ficha Limpa porque as manifestações começaram assim lá no mundo árabe e nem é necessário ficar dando exemplos agora, pois todo mundo sabe no que virou aquilo. Num mundo globalizado não se aceita mais que alguns poucos tenham muitas vantagens sobre os demais.
Vantagens a alguns poucos banqueiros acabam ruins para o povo brasileiro todo. É por conta disso a greve dos bancários que vem incomodando a todos nesses últimos dias. Enganam-se os que pensam tratar-se, esta greve, apenas de briga por aumento de salários. Além disso – aumento de salários – os bancários querem participação maior nos astronômicos lucros dos seus empregadores, os bancos. E têm razão; afinal, quem se esforça para conseguir esses lucros todos?
A Constituição brasileira estipula que os bancos só podem cobrar juros de 12% ao ano. O que os constituintes entendiam era que o juro máximo seria de 1% ao mês, mais a correção da inflação. Foi a Justiça em seus tribunais superiores que abriu a porteira aos bancos para essa farra toda. Farra é uma expressão forte, mas todos sabem que aqui no país se praticam os maiores juros do mundo. Ou está errado classificar assim essa extorsão já que até o Jornal Nacional mostrou, abismado, esses números que os bancos brasileiros estão praticando? Veja: 1) Empréstimo pessoal, juros de 6,69% ao mês (117,51% ao ano). 2) Empréstimo cheque especial, juros de 8,23% ao mês (158,33 ao ano) e 3) Cartão de Crédito, juros de 10,69% ao mês (238,30% ao ano) para quem atrasa.
Nesses últimos anos os bancários tentaram, através das greves, melhorar seus salários e terem melhor participação nos lucros e nunca saíram delas satisfeitos. Talvez a solução esteja em os sindicatos se unirem aos movimentos sociais e passarem a lutar em todas as causas que tentam acabar com as vantagens a poucos, pois elas são sempre ruins para muitos.
Membro da Academia Douradense de Letras; foi vereador, secretário do Estado e deputado federal.