Waldir Guerra
Problemas locais tendem sempre ser mais comentados na imprensa e até mesmo em bate-papos entre amigos assim como, por exemplo, os buracos nas ruas da cidade. Ou, então, acidentes graves no trânsito.
Quando se trata de assuntos políticos a conversa vai do número de vereadores possíveis para o próximo mandato até a liberação de tantos milhões para essa ou aquela obra. Dificilmente se ouve discussões ou, pelo menos, comentários sobre projetos importantes como as prometidas ferrovias Dourados – Cascavel; ou o ramal ferroviário de Santa Fé a Porto Murtinho passando por Maracaju – que se bem trabalhado, politicamente, Dourados entrará nessa rota.
As ferrovias irão substituir o transporte rodoviário de grãos para os portos. E trarão de volta cargas pesadas até as grandes cidades do interior. E nem precisaria acrescentar, mas é bom lembrar aos produtores rurais e comerciantes que o frete baixará no mínimo 30%, o que isso significa um ganho para todos.
Ninguém comenta ou discute a construção do oleoduto – tão prometido na campanha política – para transportar essa pro-dução toda de álcool de Mato Grosso do Sul para o porto. Já temos mais de vinte grandes destilarias funcionando no Estado e daqui a pouco serão quarenta. Até quando os caminhões irão continuar levando álcool ao porto se as estradas já não suportam nem mesmo o fluxo de automóveis?
Até pouco tempo atrás a administração pública municipal não tinha o menor interesse em melhorar o aeroporto local. Hoje o trabalhador mais humilde da cidade sabe a importância em se ter linhas aéreas operando aqui para os grandes centros. Ele já sabe que o empresário não vem aqui criar empregos se não tiver à sua disposição vários vôos por semana. O que ele não sabe ainda é que se houverem mais vôos diários e de diversas companhias elas se obrigarão a baixar os preços das passagens e, por consequência, ele próprio poderá viajar de avião.
Se o aeroporto precisa ser ampliado e melhorado para receber aviões maiores por que não se discute isso? Por que não fazem cobranças a respeito disso as entidades classistas?
Convites chegam todos os dias para participar de palestras a fim de discutir temas que vão desde o bom uso da água até a importância do plantio direto para a melhoria dos solos. Todas elas são, sim, importantes, mas não se vê um chamado de sindicato para discutir a melhor maneira de pressionar os responsáveis por obras essenciais. E essas coisas não são importan-tes somente para a cidade, mas também para os próprios sindicatos.
A impressão que fica é de que os sindicatos esperam pelas associações empresariais e estas deixam esses assuntos aos políticos. A responsabilidade maior é dos políticos, claro, mas quem não sabe que político precisa ser cobrado? E quem deve fazer isso são os eleitores através das suas representações classistas, quer seja um sindicato ou uma associação da classe que ele participa.
Mesmo sem promover palestras ou debates a respeito de obras importantes, as entidades deveriam em suas reuniões clas-sistas, de vez em quando, discutir essas obras importantes para o desenvolvimento futuro. Depois encaminhar à imprensa, aos políticos e administradores públicos, essas reivindicações. Para ser mais explícito: fazer pressão sobre os responsáveis para que se mexam; que apressem seus trabalhos.
Se assim não se proceder, obras importantes e fundamentais para a cidade e região serão lembradas somente em campanhas políticas. Um provérbio popular mostra bem como é importante manter uma reivindicação sempre lembrada: Água mole em pedra dura bate, bate, até que fura. * Membro da Academia Douradense de Letras; foi vereador, secretário do Estado e deputado federal.