Somos todos escritores, porque o autor não existe

Por: Davi Roballo - 13/09/2017 07h00

Em certa ocasião, ao visitar um amigo, deparei-me com enormidade de escritos acumulados durante mais de vinte anos. Entusiasmado, li uma pequena parte de cada encadernação e disse-lhe que deveria publicar suas ideias, separadas em poemas e outros escritos que dariam uns oito livros com mais de 200 páginas cada um. Mudei de ideia depois de o amigo argumentar não ter maturidade suficiente para ver seu nome na capa de um livro, pois, segundo ele, se sentiria conforme o que diz o psicanalista Bion: "o idiota que tiver seu nome impresso na capa de um livro vai pensar que o livro é dele".

A quem poderia ser atribuída à dádiva de tudo saber? Por incrível que pareça, existe uma palavra que resume isso, ou seja, o intelectual. Tal é a presunção humana que em palavras doura a ignorância para que não mostre a estupidez e o absurdo que são rótulos como esse.

Todos sabem que é impossível se dominar a imensidão de assuntos relativos ao que percebemos do mundo e do universo até agora, até mesmo de um determinado assunto delimitado, seja qual for a área do conhecimento.

No entanto, os homens dos "saberes" se denominam como intelectuais e os demais, como leigos, como se separassem homens que estejam na lama junto com os porcos em criadores de porcos e os donos dos porcos, sem perceberem que ambos estão chafurdados na lama tanto quanto tais animais.

Quem melhor pontuou a questão do conhecimento e o que significa foi Nietzsche: "Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro, onde animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da ‘história universal’: mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer. Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza."

O maior engano intelectual que um homem do conhecimento pode cometer e comete como um ser alfabetizado, levado pela presunção, é ter certeza de que o livro que escreveu é dele. Então se autointitula como autor, como se isso o diferenciasse dos demais, o colocando numa situação super-humana, como alguém que cria, outra grande mentira, pois, segundo Mario Quintana, "Não há tolice que se diga agora / que não tenha sido dita antes / por um sábio grego de outrora".

Todo aquele que escreve é um plagiador indireto por excelência, simplesmente porque o conhecimento é como se fosse uma corrida de bastão, tudo o que sabemos hoje, outros pensaram de outra forma, e antes desses, outros pensaram, e assim sucessivamente. No entanto, como não somos bons em hombridade, damos o eufemismo de inspiração ao plágio que fizemos de ideias universais, que por sua vez também passaram pelo mesmo processo, ou seja, para chegarem até nós passaram por outros que acreditaram piamente que a ideia era deles.

Ninguém cria e adquiri sozinho o conhecimento, somos pobres demais para isso. O conhecimento é uma construção sem fim, sem dono, é algo que está à espera de quem o busca. Quando se escreve, é dever do escritor ser consciente de que nada de sua escrita é inédito, como foi encontrado na simplicidade e hombridade de Freud, ao dizer que nada do que ele escreveu deixou de ser anteriormente dito por um poeta.

Jornalista, Especialista em Comunicação e Marketing / Especialista em Jornalismo Político. (daviroballo@gmail.com)