O tormento das palavras !

Por: Antonio Carlos Siufi Hindo - 19/05/2017 07h00

Aprendi com o General Plinio Pitaluga, herói da Segunda Grande Guerra Mundial e comandante da 4ª. Divisão de Cavalaria, à época em que prestei o meu serviço militar que na vida precisamos tomar cuidados com as nossas ações e práticas rotineiras.

Dentre essas ações estão a fala e a escrita. Essas lições foram memoráveis, inesquecíveis. Todas as segundas feiras o comandante militar brindava a tropa reunida à sua frente com essas mensagens de otimismo e de esperança. Elas não custavam nada. Vinham ao nosso encontro como uma bênção divina. Precisamos estar sempre atentos para o que falam e sentem os mais experientes. Normalmente não falam bobagem.

A idade não permite mais esse tipo de atrevimento. Suas lições de vida levavam-nos a uma reflexão profunda sobre o comportamento que precisamos ter no âmbito pessoal, familiar e também nas relações de trabalho.

O comandante militar estava encharcado de razão. Tudo o que se fala e o que se escreve ficam marcados de uma forma indelével em nossas vidas. Se a escrita ou fala machucar ou ofender alguém fica muito difícil para o seu autor voltar atrás a não ser pedindo desculpas. Como as desculpas nesses casos ocorrem com pouca frequência o certo é que o autor da frase terá que levá-la consigo para o resto da vida.

É uma questão de consciência. Passa a se constituir no seu principal tormento. Por isso que as palavras proferidas verbalmente e aquelas escritas a respeito de qualquer tema precisam ser acompanhadas da máxima cautela, para não ferir sensibilidades, provocar a discórdia, romper as amizades e evitar a tragédia. Ninguém está obrigado a exarar o seu juízo de valor crítico a respeito de um determinado assunto que rola nos colóquios sociais, ou mesmo nas relações de trabalho.

Não interessa a causa motivadora do tema. O que as pessoas querem é o seu juízo de valor. Ainda assim o convidado fala se quiser. Ninguém está obrigado a fazer o que não quer e não deseja. Agora, se o convidado resolver falar sobre o tema em questão, precisa tomar cuidado redobrado.

Todos os que o circundam estarão atentos para ouvir a sua opinião. Elas serão muito importantes para uma avaliação da sua real experiência de vida. As palavras marcarão profundamente a sua relação com as pessoas que o circundam.

São os seus juízes críticos. Em razão disso cresce de importância alinhar um posicionamento a respeito do que pensa escorado em argumentos que geram crédito e despertam confiança. Se conseguir ganhar a simpatia e o beneplácito dessas pessoas a respeito do ponto de vista que exarou, ótimo. Se não conseguir, precisa pelo menos ganhar o respeito a respeito do ponto de vista que esposou. Já está de bom tamanho.

O que não pode é falar bobagem, algo vazio, destituído de fundamento e que pode transformar a vida das pessoas em um verdadeiro inferno. Foi isso o que aconteceu com o ex-presidente Luis Inácio Lula da Sila quando afirmou na abertura do 6º congresso do seu partido que "se não for preso logo, pode mandar prender os responsáveis por publicar informação, que ele está para ser preso ". Foi uma afirmação infeliz.

A advertência foi feita pelo Juiz Sérgio Moro durante o seu interrogatório em Curitiba. O ex-presidente tentou justificar o injustificado. A força da literalidade das palavras não tem como ser contornadas. Cobriu-se de vergonha o ex-presidente diante de um juiz bem mais jovem. Sua experiência de vida não lhe autorizava esse tipo de comportamento.

Como primeiro mandatário da nação por duas vezes as suas palavras precisavam se constituir em um norte seguro para a população vencer as vicissitudes do dia a dia, evitando constrangimentos. Mas o ex-presidente não é o autor isolado dessas frases infelizes.

Outras tantas existem e que nos remetem ao mesmo entendimento. Nesse caso e em outros tantos que a vida nos reserva quando não se tem nada de útil e proveitoso para compartilhar com terceiras pessoas o melhor que fazemos é oferecer o nosso silencio.

O silencio fala por tudo. Essa é a mais comedida de todas as recomendações que a etiqueta social pode oferecer ao cidadão. Vale a pena experimentar esse cardápio social generoso para as boas ações e relações no curso da nossa jornada diária. Ele nos fortalece o suficiente para nos sentirmos mais dignos, confiantes e respeitados. Esse é um legado precioso que todos gostariam de usufruir e legar para os seus vindouros.

Promotor de Justiça aposentado (dr.hindo@hotmail.com)