O reportante do bem e a guerra entre poderes

Por: Wilson Valentim Biasotto - 02/12/2016 18h00

Bepi Bipolar andava sumido assim como o seu amigo Tino Sonso, mas é provável que seja lembrado pelos leitores, senão basta consultar www.biasotto.com.br e encontrará as façanhas de Bepi, um sujeito que ora está com o senso perfeitamente normal, ora entra no nonsense. Nessa semana apareceu almoçando, acompanhado do amigo, aliás único amigo, capaz de ouvi-lo, Tino Sonso.

Tino reparou que o amigo possuía várias manchas rochas e não resistiu em perguntar-lhe se havia sofrido algum acidente. Bepi, começou a falar depressa e sem interrupção:

Acidente coisa nenhuma. O que vê ainda é pouco, se lhe mostrar as costas e o peito você vai ficar impressionado. Tudo pancada da polícia de Brasília quando entrei no meio de uns 30 mil manifestantes contra a PEC 55. A polícia de hoje me faz compara-la com a que agiu na época da Ditadura Militar em 1984, contra manifestantes pelas Diretas Já. Mas essas marcas se apagarão com o tempo, o que não se apagará jamais serão os efeitos dessas tresloucadas medidas adotadas pelo governo Temer e aprovadas no Congresso contra os direitos do povo brasileiro.

Sabe Tino, prosseguiu Bepi Bipolar. Estamos vivendo uma guerra, um enfrentamento entre o Legislativo e Judiciário que coloca o presidente golpista como um molusco entre o mar e o rochedo. Por seu lado o Legislativo agiu indignamente, deu a impressão que aprovaria as dez medidas contra a corrupção, mas na calada da noite apresentou emendas e mais emendas que deturparam a iniciativa do Ministério Público. Tino Sonso, que geralmente não interrompe seu amigo, dessa vez não se aguentou e perguntou-lhe se a iniciativa foi do Ministério Público ou do povo que, cansado de corrupção, assinou embaixo da proposta?

Então Bepi continuou a sua exposição: Digo Ministério Público, apesar de 2 milhões de assinaturas que dariam a ideia de que fora uma iniciativa popular. Por outro lado, não deixa de assistir alguma razão ao Legislativo que, se aprovasse o projeto em sua forma original geraria um estado jurídico-policialesco. Ora veja, diminuir o direito ao habeas corpus, implantar a figura de um reportante, ou seja, abrir espaço para que qualquer cidadão denuncie o seu amigo ou seu parente equivale aos procedimentos nazi-fascistas. Reportante! Até o nome não cai bem.

Fez-se um longo silêncio até o final do almoço, mas logo após o café Bepi Bipolar, ao que tudo indica no seu polo nonsense, desandou a falar: Sabe Tino, deveríamos fazer um abaixo assinado para manter Temer no poder. É certo que o seu desastrado governo está arrasando o país, Dilma jamais tomaria atitudes contra o seu povo e encontraria outras maneiras para combater a crise, auditando a dívida interna, verdadeira Gargantua, mas especialmente tributando as grandes fortunas e taxando também o lucro dos investidores em aplicações financeiras. Por seu lado o governo golpista está sacrificando os trabalhadores e levando o país a voltar para o mapa da fome da ONU, no entanto entendo que sem Temer será ainda pior.

Sabe Tino, continuou Bepi, o Ministério Público e até mesmo o Supremo Tribunal Federal andam às turras com os políticos, sendo que o Supremo está até mesmo fazendo Leis, como a que permite o aborto antes dos três meses de gestação e o Ministério Público, ao menos os seus representantes na Lava a Jato estão tentando colocar-se acima da própria Constituição, haja vista as prisões coercitivas sem aparente necessidade, as escutas clandestinas de ligações telefônicas e a divulgação precipitada de processos ainda em andamento. Daí o Legislativo reage e enquadra os distribuidores da Justiça imputando-lhes crime de abuso de autoridade. É uma queda de braços. Supremo e MP pressionam o Congresso, se ganharem em seus pleitos estará implantada definitivamente uma Ditadura Judicial, se perderem Temer se verá entre a cruz e a espada, cairá na chantagem da Lava a Jato que ameaça renunciar coletivamente e veta a Lei? Ou colocar-se-á ao lado do Congresso? Para onde pender custará o seu mandato que já está por um triz. De qualquer forma somente cairá em 2017, quando a escolha do novo presidente será por via indireta. Quem será eleito? O PSDB, que já tem experiência em lascar com o povo com o seu neoliberalismo ou um Joaquim Barbosa ou mesmo Sérgio Moro, representando a ditadura judicial?

Membro da Academia Douradense de Letras. email: biasotto@biasotto.com.br