Manoel Marques Cardoso *
O ministro Guido Mantega, fez algumas profecias de que o Brasil nos próximos 10 ou 20 anos pode atingir o padrão de vida do primeiro mundo. Fiquei pensando nessa alucinação do ministro, diante da realidade brasileira e a previsão completamente fora de contexto.
Se o ministro tivesse dito que poderíamos atingir padrões de vida do primeiro mundo em 18 ou 20 anos, tudo bem, a margem de erro seria aceitável, mas colocar uma distância de 10 anos de margem de segurança, envergonha a mim, economista em desuso como aqueles atuantes nos institutos de pesquisa que conhecem a realidade brasileira.
Só para mostrar uma face da diferença entre nós e o Reino Unido que segundo o FMI foi ultrapassado pelo Brasil em termos de PIB, lembrando que no nosso PIB são computados juros e inflação, que aumentam o PIB ilusoriamente. Neste final de ano fui com minha família passar uns dias numa praia do litoral norte, considerada de boa freqüência.
Numa das manhãs com a praia ainda vazia, fui passar algum tempo solitàriamente no deck da pousada, que fica de frente para o mar. A praia ainda estava vazia e um cidadão rastelava a areia para que os banhistas encontrassem a areia limpa, especialmente em frente às pousadas que existem em grande numero naquele local.
Interrompi o meu cuba libre e desci até a praia para trocar um dedo de prosa com aquele cidadão que rastelava e jogava em enormes sacos plásticos o fruto de seu trabalho.
O que ouvi daquele senhor foi estarrecedor, tendo em vista o que ele recolhia com seu rastelo e tinha um ferro pontiagudo que pegava coisas que lhe causavam nojo.
Abriu um dos sacos e me mostrou alguns desses objetos e porque não dizer, dejetos, que me causaram alguma repulsa àquela hora da manhã. (9,00 horas) Despedi-me daquele coitado, que faz um trabalho nojento, e subi para terminar minha bebida calmamente.
Dentro de uns vinte minutos começaram a chegar os banhistas, casais jovens instalavam-se na areia com seus guarda-sóis e caixas de isopor. Passavam-se os tradicionais protetores, deitavam-se nas esteiras e começavam a tomar suas cervejinhas e as latinhas vazias, como não poderia deixar ser, eram jogadas displicentemente para os lados.
Esse é o começo da imundície em que vai se transformar a praia, com os mesmos procedimentos dos demais chegantes.
Numa tarde fui a um mercadinho e na ida fui observando copos plásticos em cima dos muros, fraudas usadas jogadas junto à sarjeta, cocos ainda com os canudinhos jogados no costado dos muros, latas e garrafas de cerveja jogadas por toda parte, enfim as calçadas e sarjetas transformadas em verdadeiras lixeiras, assim como acontece em frente ao meu escritório que usuários de um bar próximo colocam as latinhas e garrafas até em cima do peitoril das nossas janelas.
Claro que temos que nos habituar ao emporcalhamento geral, não podemos mudar o comportamento das pessoas de uma hora para outra, mas podemos exigir que o governo da sexta maior economia do mundo, tire da mais absoluta miséria mais de Onze milhões de famílias que vivem nas encostas de morros, em palafitas, onde a mesma água que recebe as fezes humanas e de animais é usada no preparo de alimentos, quando não ingeridas por adultos e crianças.
Acho que ultrapassar o Reino Unido no PIB foi fácil, até porque a recessão européia está contaminando os demais países, o que vai demorar muito mais dos 20 anos citados por Mantega é fazer do Brasil, um pais de pessoas educadas, respeitadoras de seus limites de liberdade de emporcalhar o que não lhes pertence.
Tenho absoluta certeza que, no agora em sétimo lugar na economia mundial, a educação escolar, comportamental, respeito ao semelhante, não se coadunam com nosso modus operandi, assim como a miséria reinante no Brasil, para eles é um fenômeno extinto há dezenas de anos.
Economista/empresário e mail manoelmarquescardoso@hotmail.com