Manoel Marques Cardoso
Peço licença pra colocar aqui um trecho do artigo escrito por Contardo Calligaris que bateu muito forte no meu interior e possivelmente, encontre pessoas com os mesmos sentimentos em relação aos Pentimentos.
“Pentimento é a palavra italiana para arrependimento, mas designa em muitas línguas um desenho, uma pintura ou um esboço encoberto pela versão final que damos a essa pintura.”
“As vezes, com o passar do tempo a tinta deixa transparecer uma composição em cima da qual o artista pintou uma nova versão.” “Outras vezes, os raios x dos restauradores desvendam opções anteriores, que permaneceram debaixo da obra final. Esses esboços ou pinturas que o artista rejeitou e encobriu, são os pentimentos, que foram descartados sem serem, propriamente, apagados.” Na juventude, lá pelos meus 19 anos, reunimos um grupo de amigos que tinha o grande desejo de ir para os Estados Unidos, à época em grande expansão, para trabalharmos em trabalhos braçais, cortar grama de jardins, coletas de lixo, coisas para alguém sem nenhuma qualificação profissional, cujos salários eram muito maiores do que ganhávamos em São Paulo. Atravessamos a maratona de documentos, algumas mentiras para sermos aceitos e por fim iríamos embarcar em Congonhas.
No dia do embarque, o único que entrou em pânico fui eu, os outros três tinham uma retaguarda composta de pais, mães e irmãos, que numa eventualidade, poderiam socorrê-los, uma vez que sob meu ponto de vista, você não é totalmente solitário quando tem um parente com quem possa contar, mesmo que esse parente esteja a milhares de quilômetros de distância, o que não ocorria comigo que não tinha ninguém com quem contar, caso algo desse errado.
Não embarquei e fui para meu quarto conversar com teto, a quem eu disse todos os meus medos, numa espécie de tentar justificar minha covardia.
Não mantive contato com os que foram, somente algumas informações de familiares de um deles que morava na Rua Morato Coelho em Pinheiros.
Fui motivo de gozação de outros amigos que participaram de nossos planos por ter desistido na última hora.
Esse foi meu Pentimento, a pintura original foi borrada com essa mudança em meu destino que poderia ser muito melhor no meu imaginário. Retoquei a pintura e mudei meu destino.
Um dos que foram depois de muitos anos, fiquei sabendo que se tornou diretor de um grande banco americano, estudou na California, constituiu família e nunca mais voltou, apenas para visitar o pai, a mãe e a irmã que aqui ficaram.
Esse não retocou sua pintura, seu pentimento foi um sucesso, manteve o quadro de acordo com suas escolhas. Dos outros dois nunca mais se ouviu falar. Acho que também cumpriram com suas escolhas e que Deus os tenha encaminhado conforme seus desejos e sonhos.
No sábado leio um texto da jornalista Rosana Braga que fala em dizer eu te amo e a perigosa banalização dessa expressão, muitas vezes ditas sem o respeito ao sentimento que a frase carrega. Quando jovens, nos trâmites da conquista, usamos essa expressão com absoluto oportunismo, sem nos dar conta que estamos causando na outra pessoa, expectativas que jamais se concretizarão.
Quantas vezes mudamos os pentimentos da pessoa ouvinte, que pintou um quadro em que você estava inserido no mais absoluto sonho de verdades, quando tudo que a pessoa ouviu foram apenas meios de convencimento, especialmente em décadas passadas, em que dizer “eu te amo”, saia fácil da boca dos então jovens, não necessàriamente do coração, numa época em que a sexualidade rolava com certas restrições, quase proibitivas.
Mantive meus pentimentos o mais intactos possível, mesmo levando em conta as árduas situações que um jovem pobre e sem retaguarda passa para chegar ao sucesso pessoal e profissional.
Nos quadros que pintei durante minha ascensão social e profissional tiveram poucos retoques nos “pentimentos” uma vez que constitui família que resulta em dois filhos maravilhosos e três netinhas que preenchem fartamente qualquer lembrança que ouse querer encobrir as escolhas retratadas na pintura original.
O final de ano é propicio para reflexões, pense um pouco no quanto seus pentimentos sofreram novas versões e se as novas escolhas o fizeram mais feliz.
Ddos. 12-12-11
Manoel Marques Cardoso economista/empresário e mail:manoelmarquescardoso@hotmail.com