23/11/2011 16h59 - Atualizado em 23/11/2011 16h59

Os velhos

 

Manoel Marques Cardoso *

Vivemos num país em que para se respeitar crianças, adultos, deficientes, velhos que chamam hipocritamente de idosos, precisamos de leis, assim como existem leis para que os postulantes à política precisam de um lei que os enquadre como Ficha Limpa, como se isso não fosse obrigação de todos nós, ou seja, ser minimamente honesto para ocupar qualquer cargo, seja publico ou privado.

Estava numa borracharia esperando consertar um pneu quando chegou um Corola já de alguns anos de vida, completamente limpo e o motorista era um senhor, que depois vim a saber tem 82 anos de vida. Saiu, pediu gentilmente para que fosse retirado um pneu furado de seu porta malas e sentou-se ao meu lado, para a curta espera.

Como me cumprimentou, senti a liberdade de perguntar como consegue manter um carro tão limpo, numa cidade em que nossos carros, via de regra andam meio sujos.

Pacientemente me disse que limpa seu carro todos os dias, num ritual quase que sagrado, porque gosta de sair para passear com seus neto e neta e que estes se orgulhem de o avo ser cuidadoso, tanto com o carro como com seus pertences de um modo geral.

Falou-me com certa tristeza da situação dos velhos brasileiros que depois de aposentados precisam catar papéis e latinhas nas ruas para poder manter-se com a mínima dignidade.

Criticou, com certo ênfase, o fato de reservarem vagas nos estacionamentos destinados aos idosos (palavra que abomina, por acharem que com isso amenizam os percalços por que passam os nossos velhos) que são vistos como estorvo, ao invés de seres humanos que contribuíram para a construção do bem estar da sociedade, que hoje os trata de forma discriminatória.

Diante da disposição daquele senhor e conversar contei a ele uma historinha que envolve uma cadelinha muito velha que ficou por quatro ou cinco dias num gramado, na entrada do condomínio onde mora Silvia Corrêa, cuja assunto ela tratou no Cotidiano da Folha de S.Paulo.

Depois de alguns dias, ela chegou em casa debaixo de chuva e viu a cadelinha toda molhada num cantinho do prédio.

Colocou-a no carro e a levou para sua casa. Ato contínuo distribuiu um panfleto em todos os apartamentos procurando os donos da cadelinha. Não apareceu ninguém.

Levou no veterinário que precisou fazer um exame e constou que ela tinha vários tumores nas mamas e uma infecção na bexiga que provocava incontinência urinária.

Foram feitas várias cirurgias, e muitos cuidados nos pós operatórios, mas a incontinência urinária não teve jeito. De vez em quando ela sobe na cama de Silvia e molha a cama em locais inapropriados. Justamente onde a dona vai dormir.

Para resolver o problema e não colocar a cadelinha para dormir no quintal, Silvia coloca nela fraldinha especial para cães, que tem até um furinho para o rabo. Em cima da fralda uma calcinha para segurar a fralda.

Essa historia contada por Silvia comoveu o velho sentado ao meu lado que achou um exemplo de como os velhos deveriam ser tratados e não termos leis idiotas que nunca são cumpridas.

Nesse momento o velho sentado ali do meu lado, levantou-se porque seu pneu estava pronto e me pediu um pouco mais de atenção. Fui com ele até o carro e ele tocou num assunto que não pensei que soubesse.

Disse-me que estão querendo cobrar valores maiores nos planos de saúde dos mais jovens para compensar as seguradoras com os gastos maiores que os velhos possam ocasionar quando aposentados, uma vez que a renda diminui e os gastos aumentam.

Disse me ainda que existem seguradoras que aplicam milhões de reais para patrocinar jogadores de futebol e para manter um gasto pouco maior com os velhos querem sacrificar os mais jovens.

Então eu lhe disse que tem total razão e citei que o assunto, estava sendo tratado numa reunião em Nova York em que a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) mencionou o fato de algumas seguradoras recusarem planos de saúde para pessoas com mais de 60 anos, mesmo com mensalidades absurdamente caras.

O homem tomou seu carro e continuou sua vida, e eu fiquei matutando, por quê será que os homens velhos não são tratados como a Dodi, a vira latinha que a Silvia adotou, com carinho, atenção, amor e muita paciência.

Economista/empresário e mail : manoelmarquescardoso@hotmail.com



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