Manoel Marques Cardoso
Assisto todos os dias um jovem subir a Rua Bela Vista com sua cadeira de rodas, transitando pela rua e na contra mão. Ele está corretíssimo em vir na contra mão, assim fica mais visível para os motoristas apressadinhos que querem enfiar o carro em qualquer brecha na loucura de ganhar uns quatro ou cinco minutos no trajeto de casa para o trabalho, não importando o estresse que causem aos outros motoristas que trafegam com a devida prudência e respeito ao semelhante.
Todos os dias questiono as razões porque esse jovem tem que correr os riscos por trafegar na rua e não na calçada, onde seria muito mais seguro. Simples, sempre fomos governados por pessoas que ficam curtindo o ar condicionado do gabinete e não vem encarar a realidade das ruas, neste caso das calçadas.
Assisti a um filme de como são tratadas pessoas com vários tipos de deficiência numa cidade americana. Num enorme salão, dividido por setores, os deficientes visuais têm ao lado uma pessoa com imobilidade dos braços que ditam textos que são teclados no computador, cuja tarefa executam com desenvoltura. Tem aqueles com imobilidade das pernas que pintam com as mãos e os que têm alguma deficiência nos braços que pintam com os pés e os que são tetraplégicos pintam com a boca.
Aqui no Brasil sou comprador de quadros que são pintados com os pés e com a boca e posso garantir que são verdadeiras obras de arte. Concomitantemente a esses fatos, assistimos confeccionarem, aqui em Dourados, uma lei que obriga a colocação de tátil nas calçadas da cidade inteira.
Vejamos o que diz o cadeirante Jairo Marques, em um dos textos que publica semanalmente no Cotidiano da Folha de São Paulo. “Conheci Diesel em um café. Relaxadão em baixo da mesa, mas atento, aguardando a hora do comando, em inglês, para conduzir a dona até a sala de exibição do filme. Quem diria que hoje em dia cachorro pode entrar em sala de cinema.”
“Cães guia não servem para engordar carrapatos e ceder a cabeça para receber cafuné na hora da novela. Eles têm a responsabilidade de fazer a vez do sentido dos que não vêem. Ajudam a sinalizar degraus, encontram saídas, desviam de obstáculos, alertam para aproximação de pessoas, conduzem com segurança o atravessar, garantem mais doçura ao dia a dia dos cegos.”
A advogada Thays Martinez, dona do cachorro Diesel mencionado acima, lança o livro “Minha Vida com Boris” que foi o cachorro antecessor de Diesel, com o qual conviveu por muitos anos e o Jairo Marques qualifica o livro como o fascinante entendimento de uma vida às escuras mas iluminado de emoção de vontade de seguir adiante e de carisma.
Será que os feitores da lei do piso tátil não pensariam diferente se lessem o livro da Thays (eu ainda não li, mas já pedi um exemplar à Globo Livros) em relação a obrigatoriedade do piso tátil, que abrange toda uma cidade, quando o universo dos deficientes visuais é estreitado por essas calçadas horríveis, desiguais, desconformes, com enormes degraus com arvorezinhas lindas entupindo o caminho, lixos, carros, (hoje vi até um caminhão sobre uma calçada), enfim, exigir calçadas viáveis, para deficientes ou não, em toda a cidade, possivelmente seria de muito maior utilidade do que o piso tátil nessa imensidão de ruas que, em muitos casos, jamais serão pisadas por um deficiente visual.
Ninguém questiona a necessidade o piso tátil, o que questiono é que a sociedade poderia oferecer alternativas muito mais eficientes, como o treinamento de cães guia, transporte para aqueles necessitados, centro de convivência com equipamentos que funcionem como terapia ocupacional, onde as pessoas possam se sentir úteis e felizes ao conviverem com outras pessoas deficientes ou não.
Sei que o assunto é delicado, mas quero injetar aqui minha total ignorância sobre o tema, mas achei oportuno abordá-lo a fim de que, de repente, possa descortinar idéias novas aos responsáveis pelas leis que regem condições para melhorar a vida de pessoas que, até certa medida, não são chamadas a dar suas opiniões.
Economista/empresário
manoelmarquescardoso@hotmail.com