Manoel Marques Cardoso
No Vale do Itajaí, um casal de classe média alta, adotou uma menina de três anos. Como ir-mãos não podem ser separados, por entendimento da justiça, levou também o menino de seis anos, hoje com 12 anos e a menina com 10. O casal tentou devolver o menino por várias vezes sem sucesso, no final de 2010 entrou no local em que adotou as crianças, deixou o menino lá e foi embora.
Essa criança foi abandonada pela segunda vez. Vou contar um caso que ocorreu comigo quando tinha cinco anos, para ficar claro que com sentimento de criança não se brinca de levar e devolver como se fosse mercadoria.
Depois de meus padrinhos resolverem me internar num orfanato na cidade de Marília, arruma-ram minha malinha e chamaram um funcionário da loja deles que ficava na Rua Cardeal Arco-verde com a Rua Capote Valente, no bairro de Pinheiros em São Paulo, para me levar até o Orfanato. Numa tarde fizemos as despedidas, tanto de meus padrinhos como de minha irmã que continuou morando com eles.
Foi uma cena que me abalou profundamente, estava deixando para trás minhas ultimas refe-rências familiares e sendo levado para um local que não tinha a menor idéia do que seria nem onde seria, apenas sabia que era um asilo para crianças.
O sujeito que foi me levar, estava muito mal humorado por ter sido escalado para levar uma criança a uma cidade que não conhecia e sabia que ficaria mais de 12 horas em um trem sen-tado ao lado de uma criança, com a qual não tinha nenhuma convivência.
Isso me custou uma noite inteira em claro, de vez em quando olhava para aquele homem sisu-do com cara de poucos amigos de quem aprendi a ter medo. Chegamos na cidade ele to-mou um taxi e o motorista nos levou até o orfanato. Chegando lá, entramos por um portão e fomos a pé até a entrada do orfanato. Logo na entrada tinha um balcão enorme, para criança tudo é muito grande, lá dentro eu via apenas o rosto de uma mulher. O sujeito entregou meus documentos e disse que aquela era a criança que a Dna Emilia havia combinado para fazer a internação.
Perguntou se era só aquilo, virou as costas e foi caminhando até o taxi. Fiquei olhando aquele homem se distanciar e senti uma tristeza imensa, mesmo antipático e seco era a ultima pessoa com quem mantive alguma ligação e que me lembrava as pessoas que aprendi a amar que ficaram em São Paulo. Nesse orfanato mais ou menos uns dois anos depois, a Dna Lúcia, esposa do responsável pelas crianças, me levou para passar um domingo na casa do irmão dela.
Fiquei o dia todo com as três meninas do casal, uma de minha idade e as duas, uma mais nova e outra pouco mais velha, mas regulávamos todos em idade. Depois desse primeiro dia, as meninas pediram para o pai me pegar de novo para passar o domingo com elas. Isso acabou se tornando uma rotina, todo domingo lá pelas oito horas o Sr Damião aparecia com seu corcel vermelho e me levava para passar o dia com eles, onde almo-çava, jantava e depois era trazido de volta.
Na maioria das vezes as meninas vinham comigo no carro até o orfanato e me deixavam no portão de entrada. Sentia que gostava daquelas visitas, até que o Sr. Damião demons-trou a intenção de me adotar. Falavam sobre uma adoção na minha frente sem ter a idéia do que se passava na minha cabeça. Embora morasse num orfanato, sempre nutria um desejo enorme de morar de novo com minha irmã e meus padrinhos, que ocupavam meus momentos de tristeza, sentado debaixo de um pé de laranjeira, meu local preferido para pensar e verter algumas lágrimas.
Eu queria ser adotado para viver perto da Dna. Eulália, esposa do Sr. Damião, que me tratava com muito carinho, mas ia deixar para trás as crianças com as quais já tinha uma forte ligação de amizade e com elas passava a maior parte do tempo, seria a segunda vez que deixaria pessoas que gostava para ter uma nova vida.
Resolveram que criança com mãe viva não podia ser adotada. Continuaram me levando para passar os domingos com as meninas. Não sei se seria mais feliz adotado ou no orfanato que acabei deixando com treze anos, mas certamente me senti e sinto feliz com as realizações que conquistei com esforço e dedicação próprios.
Economista/empresário e mail manoelmarquescardoso@hotmail.com