25/01/2012 17h27 - Atualizado em 25/01/2012 17h27

A sexualidade comercializada

 

Manoel Marques Cardoso *

Não é fácil falar de sexualidade, até porque tudo começou com Pero Vaz de Caminha (1450-1500) em sua carta quando da descoberta do Brasil, que falava entre as riquezas da fauna e flora e da graciosidade das formas femininas aqui encontradas. Num dos trechos ele diz ter topado com uma índia bem moça e descreve assim:

“Tão bem feita e tão redonda e sua vergonha (que ela não tinha) tão graciosa, que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela” A carta de Caminha inaugurou também a tradição de relatos de europeus sobre a sexualidade no Brasil. Nascia ali a idéia de “paraíso sexual” que se forjou entre nós.

O professor Paulo Sergio do Carmo que escreveu por muito tempo sobre a vida íntima dos brasileiros escreve sobre textos do pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987) a seguinte colocação: “Ele escancarou a sexualidade brasileira para o mundo como uma característica positiva de nosso povo”.

Uma citação de Freyre que levou ao comentário de Carmo foi a seguinte: “O ambiente em que começou a vida brasileira, foi de quase intoxicação sexual” Estou citando os textos acima, para que fique patente que a sexualidade foi e continua sendo tema de calorosos debates e interpretações com as mais variadas conotações.

O próprio Carmo diz que as pessoas costumam exagerar quando o assunto é sexualidade:

“Não somos tão liberais e livres de preconceitos quando queremos parecer. Obviamente não somos esse “paraíso sexual” mas também não chega a ser um inferno.”

Estou querendo chegar às cenas de, como já foi citado por várias vezes, sexo explicito levado a efeito por participantes do pouco recatado BBB, onde se induz a imaginar que ocorreu um estupro debaixo dos edredons.

Já começa a sacanagem com o numero de camas inferior ao numero de participantes, propiciando juntar pessoas diferentes, dormindo sob os mesmos lençóis e, possivelmente alguma orientação do programa para apimentar situações que sempre dão bons resultados em termos de audiência.

Aliás, no quesito Audiência a Globo estava em níveis inferiores aos reality shows anteriores, daí o acontecimento mais comentado do momento e a conseqüente elevação da audiência em quase 10 pontos percentuais.

Ótimo para a Globo que fatura mais quanto maior for a audiência e nós, somos feitos de trouxas, manipulados por cenas pouco recomendáveis.

Ninguém é contra o exercício de sexo, seja praticado por quem quer que seja, mas tudo tem tempo e hora e local para acontecer.

Só para colocar uma opinião pessoal, que representa um universo de pessoas que devam ter o mesmo ponto de vista, a última novela que assistimos em nossa casa, foi com os atores Paulo Autran e a Fernanda Montenegro, dois verdadeiros artistas que nos levavam às gargalhadas com as cenas de pastelão e exercício da arte de representar com maestria, em face da experiência de ambos.

Depois de alguns episódios, com menor imoralidade daquele que se presenciou no BBB-12, nunca mais a rede Globo entrou na nossa casa, nem o telejornal, não por imposição de nenhuma das partes, mas pela fartura de alternativas mais apropriadas tanto para nossos filhos como para os adultos.

Enquanto formos tolerantes com cenas que confundem a inteligência das crianças e, precocemente, as expusermos à essas bandalheiras que dão lucro às emissoras de sons e imagens, pouco preocupadas com os escrúpulos, estaremos permitindo prosperar o dinheiro fácil para a mediocridade artística em detrimento dos verdadeiros profissionais da representação cênica.

Concordo com o professor Carmo, “Não somos esse paraíso sexual” que a Globo quer nos enfiar goela abaixo com cenas pouco recomendáveis, pelo menos, para uma boa parte da população brasileira.

Manoel Marques Cardoso Economista/empresário | e mail manoelmarquescardoso@hotmail.com


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