Lembre-se: sem os dois lados, nada acontece!

Por: José Alberto Vasconcellos - 10/02/2018 07h00

Todos os dias, todas as horas, ouve-se notícias sobre o tráfico de entorpecentes. São toneladas de maconha, de cocaína e outras porcarias, nativas ou alienígenas, apreendidas pela polícia. Sucedem-se os tiroteios entre os traficantes e a polícia, que busca reprimir o tráfico; e entre os próprios traficantes, que disputam o espaço para comerciar suas porcarias. No meio do conflito, como mortadela em sanduíche de pobre, os moradores são acossados por balas "perdidas" que vêm dos dois lados.

À sombra dos acontecimentos, a sociedade acusa os traficantes, como se eles fossem os únicos culpados, os únicos bandidos nesse comércio sujo, truculento e funesto. Na esteira desse amaldiçoado comércio, muitas desgraças acontecem: bandidos executam bandidos. Bandidos executam policiais que, como os demais membros da sociedade, são chefes de família. Pessoas que dão ou deram a vida, durante anos e anos, para proteger a sociedade, em troca de salários aviltantes.

No dia a dia, caminhando ao lado desses acontecimentos, o noticiário refere-se tão só aos traficantes, nunca sobre os consumidores das toneladas de cocaína e outras porcarias de custo elevado, que uma parcela privilegiada da sociedade consome. Esses graúdos só viram notícia, quando partem ao encontro das estrelas, montados numa OVER DOSE.

No esgoto dos grandes negócios do tráfico, bancados pelos usuários abastados, são defecados nas ruas, sem constrangimento, toneladas de "crack" (droga degenerativa de baixo preço), para o consumo de milhares de viciados, que vivem nas ruas. Essa escória de usuários, morando nas calçadas, assaltam, roubam e furtam até as bolsas das velhinhas que vão à missa, para comprar a droga. A origem e os fornecedores das porcarias, sempre, são os mesmos: no atacado e no varejo!

Entenda, que se há uma grande produção de alucinógenos, é porque há uma multidão de consumidores. A atividade que movimenta elevadas somas, representa negócio vantajoso, que enriquece rapidamente quem dele participa. Observe, mais, que esse negócio (o tráfico) é mantido por quem possui capacidade financeira e logística para movimentar o espúrio comércio. Esses escroques traficantes, são competentes no que fazem. Enrustidos no seio da alta classe social, fornecem o que ela pede. Que testemunhem os "Escadinhas", os "Marcolas" e os "Beira-Mar" da vida, para confirmar o que rola pelos túneis da pouca vergonha e da hipocrisia, que vai desaguar nos lares, aliciando os jovens, para levá-los para as ruas como escravos do vício e a serviço do crime.

Outro assunto que também freqüenta os noticiários, é o roubo de cargas, os assaltos, que ocorrem nas rodovias. O número desses assaltos orquestrados por organizações criminosas é assombroso. Empresas que possuem condições, estão despachando suas mercadorias por avião, para safarem-se das quadrilhas que infernizam as rodovias brasileiras. Quando a polícia desbarata uma quadrilha, duas outras surgem. E qual é a mecânica que catapulta esses assaltos? Claro! É a RECEPTAÇÃO praticada por comerciantes desonestos, que se beneficiam com o crime.

Tal e qual no caso dos alucinógenos, a imprensa detém-se no assaltante do caminhão, esquecendo-se que sem o receptador -- muitos deles graúdos -- não haveria interesse roubar a carga, já que não teriam para quem vendê-la.

Nesses dois casos: O TRÁFICO DE ENTORPECENTES e o ROUBO DE CARGAS DOS CAMINHÕES, sem a participação dos viciados (no caso dos entorpecentes) e dos receptadores (no caso das cargas dos caminhões) não haveria a prática dos crimes, por absoluta falta de interesse: o negócio não atrairia quem quer ganhar dinheiro fácil!

Com suporte na lógica, seria de todo interessante que a imprensa passasse também a interessar-se pelos graúdos, que sustentam o tráfico das drogas na alta sociedade; assim como atacar e denunciar os receptadores das cargas roubadas, já que sem eles não haveria o crime.

O mundo gira em cima de interesses. Há pessoas que vendem, há pessoas que compram e há pessoas que permutam; há também gente que se vende, envolvendo no negócio os interesses e o bem estar de outras pessoas, movidos pela ganância e pela corrupção.

O tráfico de alucinógenos e o roubo de cargas, movidos pela hipocrisia e a corrupção, andam de mãos dadas, mas a imprensa tem enxergado tão somente a face do traficante e do ladrão das cargas.

Mas... e o resto! Né, não!

Membro da Academia Douradense de Letras. (josealbertovasco@yahoo.com.br)