31/08/2011 13h50 - Atualizado em 31/09/2011 07h50

Contentamento

 

Julio Capilé

Por Julio Capilé < julio.capile@apis.com.br > **

** “Tendo,porém, sustento e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contente” – Paulo, I Timóteo, 6:8 –**

De acordo com o conceito de Paulo de Tarso, o São Paulo, se tivermos comida e agasalho deveremos viver contentes. Mas à proporção que as pessoas vão tendo coisas, criam mais necessidades até chegarem ao ponto em que chegamos com uma ansiedade em acumular bens que, certamente, ficarão para resultarem em desavenças entre pessoas que se estimam. O acúmulo de poupança como prevenção contra os dias aziagos é louvável, mas a pessoa ficar escrava do desejo de aumentar o patrimônio nunca estará contente e este é um ponto básico para a ausência da felicidade.

“O homem é um ser que deseja”. Inicialmente imperava a luta por alimentar-se, mas, simultaneamente ou quase, veio o desejo da fortaleza onde se esconder em caso de perigo. Portanto, a base da felicidade foi essa: alimento e moradia. Dai por diante nunca mais o ser humano parou de necessitar. Em cada época, em cada fase da vida surgem as necessidades. Não deveríamos, entretanto, balizar nossas necessidades pela gula e pela vaidade, dois pecados capitais que vem acompanhando a humanidade através dos tempos. Ansiedade de variar o cardápio e desejo de apresentar-se da maneira melhor para exaltar-se aos olhos dos outros. Com isso, tudo que vê e que lhe parece bonito, compra, mesmo que não lhe falte e nem tenha utilidade. E o “necessitar” leva à inadimplência que aumenta a insatisfação. Numa roda viva passa a existência tentando contentar-se e não consegue. Comparando com aquilo visto nos outros, cria mais necessidades, adquire mais enfeites e móveis a atravancar a casa, mas ainda não fica contente. Fica desesperado e dá muita coisa comprada inutilmente.

E a vida passa a criar mais e mais “necessidades” e o contentamento nunca aparece. Sempre há algo faltando a causar frustrações. Como diziam os antigos, “a galinha do vizinho é sempre mais gorda”, o contentamento não aparece em toda vida e, quando chega ao fim, vê-se guarda roupas cheios de camisas, calças e costumes sem uso porque a saúde não lhe permite sair do humilde pijama, por ficar retido em casa pela deficiência própria da idade. Todos os bens acumulados não trazem a alegria de viver. E a vida passou em busca da felicidade que esteve ao lado todo o tempo.

O importante é acumularmos bens que valem para esta e para outras existências. Tesouros da alma. Não há necessidade de ficarmos ricos para ajudar, com o que estiver ao nosso alcance, o faminto e o desnudo que nos pedem ajuda. Não adianta ficar a pensar em ganhar na loteria para praticar a caridade. Um copo d’água ao sedento, um copo de leite ao faminto, muitas vezes levantam o ânimo de quem recebe que estava ao ponto de desistir da vida. Até um gesto de solidariedade é caridade. Não se deve esperar ter muito para ajudar alguém. E o contentamento será nosso companheiro constante. Médico. Escreve às 4ªs feiras no O Progresso.


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