Julio Capilé
Frente a um enfermo, devemos ter o cuidado com o que se fala, principalmente se a causa do sofrimento tem algo de erros, descuidos ou desleixo do próprio doente.
Àquele que está passando por dores, devemos aconselhar de modo a não lembrar-lhe de sua culpa, se for o caso, tal como um acidente por descuido ou audácia, uma doença evitável ou mal cuidada. A pessoa com forte dor não tem a capacidade de raciocinar normalmente; sente-se abandonada apesar de todos os cuidados recebidos; tem a tendência de mal falar de tudo e de todos e, por vezes, torna-se agressiva. Como nada pode fazer guardando o leito, passa o tempo todo pensando em si mesma e, com isso, encontra dores, pruridos, ansiedade e ausência de fé. A queixa é sua companheira mesmo em sonhos; a maior parte das pessoas que a visitam, escasseiam o tempo junto a ela e acabam por evitar falar com ela. Isto porque quase todas as frases são respondidas com revolta ou agressividade. Que fazer então para ajudá-la?
Todo doente, apesar de agressivo, acalma-se com assuntos que não se relacionem com a causa do mal. Muitos ficam revoltados se o mal foi causado por outrem e dificilmente perdoam, guardam raiva para sempre. Nesse caso, se reincidir em queixar-se, é importante que lhe dê razão e assim, se acalmam.
O fato é que toda moléstia cronificada transforma o humor da pessoa. Se quando saudável era alegre, ativa, cooperadora e compreensiva, tem, com os dias de doença sem apresentar indícios de melhora, a tendência a tornar-se amarga e que em tudo vê defeitos. Por isso requer de nós muita compreensão e caridosa tolerância de modo a levantar-lhe o ânimo. É muito triste a qualquer um suportar o leito semanas, meses, tempos indefinidos, bem como a incapacidade de fazer coisas banais, como mudar de lugar na cama.
Portanto devemos lembrar-nos de só visitar um doente assim, pedindo permissão e com hora marcada, além de não alongar o tempo dessa permanência a seu lado; procurar falar só amenidades; se for religiosa, acompanhá-lo em uma prece de sua preferência; mostrar solidariedade e pôr-se à disposição em ajudá-lo naquilo que estiver ao nosso alcance; enfim, fazer com que agradeça intimamente nossa visita. Mesmo que o sofredor seja um espírita, não devemos falar da lei de causa e efeito. Enfim, o doente é muito melindrado e só se vê como sofredor que merece piedade e não de conselhos e, se revolta com orientações. Não é fácil agradar a quem esteja sofrendo dores fortes e demoradas.
Se quiser agradar acompanhe-o em seus raciocínios embora não concorde. Que seja a mais agradável possível a visita e que deixe saudade.
Médico. Escreve às quartas feiras no O Progresso.