09/09/2011 18h19 - Atualizado em 11/09/2011 07h19

TV - Programa para Urubu

 

José Alberto Vasconcellos

Alguns programas na TV, são feitos, especialmente, para o horário das refeições, e neles inseridas as propagandas que, imaginam seus produtores, podem alcançar o maior número de pessoas. O sujeito chega em casa, com os olhos descorados pela fome para almoçar e busca adicionar à sua parca refeição, um comentário sobre futebol; uma notícia política que possa melhorar sua vida; ou mesmo um daqueles programas onde evangélicos, engrossando as veias do pescoço, entoam, com o olhar perdido no além, cantos “Gospel” (canto religioso dos negros evangélicos norte-americanos), prometendo o paraíso.

O famélico trabalhador que mastiga, sem entusiasmo, seu arroz, feijão e ovo, espera ver e ouvir algo que possa dar-lhe alento ao desânimo e sabor adicional ao seu alimento.

Ligada a TV, – um programa policial – mostra um pobre diabo que foi capturado. Sem camisa e algemado, é submetido às “inteligentes” perguntas do repórter, sobre a acusação de abuso sexual da própria filha menor.

Mostram o rosto do pobre e infeliz vivente. Às perguntas – desprovidas de qualquer propósito, além do sensacionalismo barato e repulsivo, obtêm-se – daquela criatura acuada – respostas desconexas, ininteligíveis, próprias da sua ignorância e da vida miserável que sempre viveu.

Monta-se, dentro da delegacia o palco, com a conivência da polícia que, com a captura e o espetáculo, imagina “mostrar serviço”. O escárnio, o desdém que se faz daquela deserdada criatura, é extremamente repulsivo e negativo. Invadem um lar para relatar o crime de estupro e expor o “bandido” a execração, sem dar importância às crianças que assistem a TV.

Nosso país, deduz o pobre homem que se alimenta, é o berço da safadeza, a TV e a polícia nunca mostram a cara dos poderosos bandidos. Eles têm o privilégio de só falar em juízo e contam com uma paliçada de advogados para protegê-los. Esses bandidos é que são, na realidade, responsáveis pela vida de cão vivida por aquela pobre e miserável alma execrada.

No meio do despacho do seu “rango” para o bucho, o sujeito toma um gole de água e um susto: a TV entrou nos comerciais e com estrondo faz propaganda de um remédio milagroso para as “Hemorróidas”. Descrevem o mal, os incômodos e o alívio que o remédio propicia. Sujar as cuecas nunca mais! É a promessa. —Que nojo! Balbucia, mastigando seu resto de almoço.

Terminado o comercial das hemorróidas, vem a propaganda de outro remédio, que arrasa com “Caxambu”, “Tiririca-amarela”, “Micose”, “Chulé”, “Pano branco” e “Pela-saco”.

Para coroar o restante do horário de almoço do deserdado, a TV vai até um hospital público, onde mostra pessoas esquecidas no corredor à míngua de qualquer atendimento; enfermeiras e médicos descabelados, UTI com aparelhos quebrados, moscas e baratas.

Mostram o “flanelinha” que foi “moído” no porrete, por dois seguranças. Sua cara parece um bolo de chocolate: a boca e o nariz desapareceram. — Foi encontrado vomitando sangue e até agora, a despeito da nossa insistência, não conseguiu pronunciar uma palavra sequer. Voltaremos a este assunto ainda hoje, no horário do jantar! Prometem eufóricos os repórteres.

Estamos almoçando de jantando com o que há de mais nojento, repulsivo e nefasto que a TV pode mostrar. Os produtores movidos pela ganância, “não se tocam”. Os programas tem sido coisa para Urubu! Quanto as crianças: pobre delas!

Programas, que poderiam transmitir cultura e conhecimentos, são apresentados apenas para vampiros e lobisomens: começam à meia noite! Nas manhãs, as crianças são massacradas por desenhos, não daqueles de Disney, mas por porcarias alienígenas, cheias de monstros, que assustam e embrutecem até os adultos. Qual seria o objetivo desses produtores de programas infantis?

Você acha possível conciliar a degustação de um bife mal passado, com o comercial das hemorróidas?

Programas que mostrassem a placidez da campina no entardecer, quando o gado forma fila indiana para recolher-se sob a mata, seriam bons! Para a sobremesa, comerciais de sorvetes e licores para a digestão, seriam melhores ainda!

Estupros, assassinatos e hemorróidas deprimem e enojam!

Cruz Credo!

Membro da Academia Douradense de Letras. Gaúcho titulado


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