02/12/2011 17h47 - Atualizado em 02/12/2011 17h47

Ensaio sobre a felicidade

 

José Alberto Vasconcellos *

Muito se tem especulado sobre a felicidade. A revista Veja, edição 19.10.11, à pág. 99, traz-nos a seguinte nota, abordando o assunto: “A felicidade que assusta . – No Butão, 70% das mulheres dizem achar razoável apanhar do marido caso o jantar saia queimado. Apesar disso, o minúsculo país de 700.000 habitantes, situado entre a China e a Índia, fatura com seu propalado índice de “felicidade nacional bruta.”

Aqui no Brasil, mais especificamente em Dourados, fiz o seguinte teste: quando um ciclista está pedalando num aclive, tenho gritado para ele: — Força! Força que vai! Como contrapartida, tenho recebido olhares de ódio. Raramente alguém mostrou um semblante alegre, ou pelo menos quase, diante do meu incentivo. Isto é infelicidade!

Diferentemente quando o ciclista está num declive. Ao meu grito: — Vai que na descido é mole! O sujeito abre-se num largo sorriso. Isto é felicidade!

Quando alguém diz ao interlocutor que adora a segunda-feira, porque dispõe de uma semana toda para provar que é útil ao País, obtém uma resposta agressiva, chula, quase neurótica. É infelicidade enrustida!

Mas quando você informa seu interlocutor que o governo decretou ponto facultativo e, conseqüentemente haverá uma “ponte” sobre o leito de dois dias úteis, você lê na face desavergonhada do sujeito, a maior felicidade do mundo. É felicidade vibrante! Ânimo, vontade férrea de não fazer nada!

Entre uma felicidade e outra, registramos também uma marcante infelicidade, a do ministro dos Esportes, Orlando Silva, que apesar de negar com veemência desvios financeiros no seu Ministério, através do programa “Segundo tempo”, delegado a ONG´s, teve a sua imagem solapada, com uma manchete estampada na capa da Veja, ed. 19.10.11: “O ministro recebia dinheiro na garagem.” —Aí fica difícil acreditar no ministro chancelado pelo PCdoB?” Nesse “imbroglio” estão envolvidos Orlando Silva e João Dias, homônimos de dois artistas famosos do passado.

Vamos recordar, porque recordar é viver. Francisco Alves, conhecido por Chico Viola(1898-1952), cognominado “Rei da Voz”, quando morreu num acidente na Via Dutra, em 1952, deixou um sucessor, JOÃO DIAS: na época tido e havido como o “Príncipe da Voz”, porque até imitava o timbre da voz do Chico Viola.

Foi o mesmo Chico Viola quem lançou, em 1934, o cantor ORLANDO SILVA (1915-1978), cognominado “Cantor das Multidões”.

Fica claro então, que na sucessão dos acontecimentos que vem avexando o ministro Orlando Silva, o “Rei da Voz”, Francisco Alves, tem estreita relação com os acontecimentos contemporâneos, consubstanciado na manchete da Veja: “O ministro recebia o dinheiro na garagem.”

Neste episódio do Ministério dos Esportes, já se comprovou de início, que muito dinheiro rolou pelas garagens da vida, mas a pergunta é: os envolvidos são felizes?

Algumas pessoas simplórias dizem que dinheiro não traz felicidade. Sobre essa jóia do pensamento popular conclusivo, há dúvidas!

Poderia haver inércia da felicidade, sentindo o dinheiro ao alcance das mãos? A dinâmica da felicidade é congênita e o cheiro do dinheiro a enlouquece! E quando ao alcance das mãos, endoidece de vez!

Outros mais caretas dizem que dinheiro compra a cama mas não compra o sono. Conclusão mais boba! Quem vai ficar na cama dormitando, com a responsabilidade de gastar um caminhão de dinheiro!

A compra da cama, no caso, significa apenas que houve melhoria nos móveis do quarto!

A FELICIDADE quando personificada num ente vivo, daqueles que vão e vêm, é coisa misteriosa como o Pavão. Existe, exibe o lindo rabo e às vezes até canta! Publicamente, contudo, evita revelar opulência, estado de graça e exibir objetos raros, porque, invariavelmente, atrai a polícia que nunca é feliz, e tem contra a felicidade a predisposição de transmudá-la para infelicidade.

Indiferentes a esse presságio do sim e do não; do tem e do não tem, que envaidece ou frustra muitas cabecinhas, lembremos dos ciclistas que descem a ladeira; dos funcionários públicos e o mágico “ponto facultativo”; e das mulheres do Butão, que mesmo sob “pescoções”, vêm para somar e gritar em coro: “ — SOMOS FELIZES!”

Perguntado se era feliz, o Senador Sarney respondeu: — Sou! Mas aqui no Congresso quem não é?

Membro da Academia Douradense de Letras.




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