José Alberto Vasconcellos
Para os CATÓLICOS, o supremo conforto para a alma: estar com o Pai, o Filho e o Espírito Santo – a promessa de Jesus!
Para os PROTESTANTES: oportunidade para discutir, diretamente com os Profetas, os textos bíblicos – a realização do sonho de Lutero!
Para os ESPÍRITAS: evento calmamente esperado para poder, desencarnado, renascer com o espírito evoluído – segundo o evangelho de Kardec!
Para os EVANGÉLICOS: verificar se o recolhimento dos dízimos, taxas e tarifas, chegaram, realmente, à contabilidade celestial para franquear a entrada ao Paraíso.
Para os HINDUS: a certeza, pela crença na metempsicose, de que renascerão metamorfoseados – como ratos e com o cheiro de rato!
Há ainda os XINTOÍSTAS, os BUDISTAS, outras religiões, cultos e crenças. Cada um desses convertidos, esperando que se cumpram as promessas, depois que consumam o último prato de feijão neste mundo!
Para os PREGADORES, o constrangimento: a melhor parte do sermão, não foi dita!
Para os SÁBIOS, missão cumprida: plantou o saber e seus frutos saciarão a ignorância.
Para o PRESIDENTE DA REPÚBLICA: interrupção na execução da prometida política de recuperação nacional que colimaria na felicidade geral da Nação.
Para os POLÍTICOS, a dúvida! O que se pode fazer onde há somente dois partidos – Céu e Inferno – tradicionalmente antagônicos e refratários a qualquer possibilidade de conchavo.
Para os CONGRESSISTAS: possuir muito, o que não vale nada! Qual será a cotação da moeda que carregam nas cuecas, em relação ao celestial (dinheiro que compra vagas no céu); e que traz impresso no seu anverso: “Qualquer moeda que tenha o fedor da corrupção não será aceita em nossa Casa de Câmbio, e quem quer que seja o seu portador – sem demora – será escorraçado do local.”
Para os DITADORES: o momento de devolver o assento que usurpou por muito tempo!
Para os GENERAIS: hora de entregar o bastão de comando, desincumbindo-se do avanço das tropas.
Para os ADVOGADOS, o temor: passou a vida escrevendo mentiras para inocentar bandidos; será que agora os bandidos escreverão verdades, para incriminá-lo?
Para os INJUSTIÇADOS: paz para o espírito, saciado pela justiça buscada e finalmente alcançada, na Suprema Côrte do Juízo Final.
Para os ESCRITORES: dispor de todo o tempo necessário, para ver quem vai comprar e ler seus livros.
Para os ARTISTAS, um lacônico suspiro: não conseguiu dar a última pincelada!
Para o FOTÓGRAFO, faltou tempo para a realização da obra prima: tivesse agüentado mais um pouco, aquela claridade do Sol daria um tom pastel incrível, à sua última foto.
Para o PADRE: com partida simultânea. Esqueci de recomendar a alma do irmão. Será que ele achará a Casa do Pai sem a minha intervenção? Cheguei aqui quase à mesma hora, mas não consigo encontrá-lo!
Para os AGIOTAS, frustração: não houve tempo técnico para liquidar mais um devedor.
Para os AVARENTOS, a paz: não terá de gastar mais nenhum vintém. Para os SINDICALISTAS, a militância deu chabu: na última hora, o mecanismo socialista falhou. Não houve tempo para levar adiante aquela greve, com a qual se esperava vantagens pessoais generosas.
Para os BANDIDOS: o último e justo acerto das contas.
Para os ASSASSINOS a inveja, ao constatar que todas suas vítimas estão em estado de graça, situação bem diversa das deles.
Para os PEDREIROS, frustração: por não ter podido terminar o serviço, com toda aquela massa traçada e os tijolos encostados.
Para os AGRICULTORES, preocupação com a família: pôxa, tivesse chovido um pouco mais, eu teria deixado meu pessoal em melhores condições.
Para os FERREIROS, desperdício do carvão: o calor da forja vai perder-se. Uma pena!
Para os PADEIROS, havia muita lenha e muita farinha: mas a última fornada não saiu! Para os MAQUINISTAS: o trem partiu, mas não há motivo de preocupação – dos trilhos não sai – há certeza de que chegará ao destino, embora o maquinista substituto não conheça o trecho.
Para os VIGARISTAS: uma pena, deixar tantos otários clamando por nós, para “aplicarem” seu dinheiro.
Para as MÃES: finalmente, a divisão natural do seu corpo.
Membro da Academia Douradense de Letras