Isaac Duarte de Barros Junior *
O modo de vestir certos trajes, constantemente alterados no curso da história douradense, adaptados as necessidades dos nossos desbravadores, nas lidas campeiras teve grande importância. Acontecia que antigamente nos costumes, principalmente de migrantes sulinos, podia faltar tudo numa indumentária masculina adulta, menos um revólver 44 bem azeitado, na cintura dos seus donos. Cavalos bons de galope, raça apurada, esporas e arreios com peças de prata, roupas importadas, alforjes feitos com legítimo couro argentino, eram os detalhes observados pelas moças, nas visitas de cavaleiros solteiros, em festas e acontecimentos sociais. Nelas, o poncho de etiqueta uruguaia, durante os bailes na roça, complementava as vestes da masculinidade.
Nessa etapa do século passado, a população brasileira dos anos vinte, calculava-se em torno de vinte três milhões de almas. Dessa soma, Mato Grosso contribuía com duzentos e cinquenta mil habitantes, enquanto que o vilarejo de Dourados tinha quase mil no total. E o interessante desse período, era o pequeno numero de ladrões, vivendo suas malandragens por aqui. Pois, esses marginais fatalmente acabavam justiçados pela população, ou terminavam mortos sem piedade pelas forças policiais da captura. Entretanto, um grave erro de datas na história local, é praticado por muitos historiógrafos, quando escrevem a respeito da fundação de Dourados, indicando o ano de 1935. Porque em verdade, nessa data nossa povoação foi elevada oficialmente a categoria de município, já sendo um próspero distrito pontaporanense, em fase de crescimento desde o final do século dezenove, pós-guerra do Paraguai.
Dessa forma, paraguaios, índios e hispanos americanos, somados aos gaúchos, catarinenses, paranaenses, paulistas e mineiros, foram aqueles que realmente se encarregaram de fundar Dourados. Todavia, se pairam muitas duvidas com relação ao verdadeiro criador do município, sem dúvidas o gaúcho Ponciano de Mattos Pereira, é o responsável pela sua emancipação política. E não há motivos conclusivos, para falar-se em terras doadas para criar um povoado com o nome de São João dos Dourados, porque esse documento, historicamente era muito importante, para simplesmente ter desaparecido dos arquivos. Aliás, essa vontade de doação escrita, nunca ninguém a encontrou em qualquer livro cartorial da região. O mais certo, portanto, é que ela jamais houve. Desse modo, o tal documento doando uma área destinada a erguer uma cidade, feito pelo pioneiro Marcelino Pires, na realidade nunca existiu.
Para mim, douradense nato, falar nada provando, não passa de balela. E quanto mais pesquiso, reforçado pelos causos que ouvi no passado na viva voz dos últimos pioneiros desbravadores desta região, isto quando ainda eram vivos e lúcidos, inevitavelmente me convenço das muitas falhas cometidas grosseiramente em nossos anais. E do jeito que forasteiros inventaram um quilombo no distrito da Picadinha, outras inverdades regionais podem surgir. Uma delas, por sinal, começou a ser traçada, deturpando a marcha para o oeste, tempo em que o governo de Getúlio Vargas, capitaneou nos anos quarenta a rota de retirantes nordestinos. Os incentivando a se assentarem em duzentos e sessenta e sete mil hectares, divididos em duas zonas rurais de terras devolutas, Getúlio praticou uma reforma agrária.
Assim, pelo Decreto lei nº 5941 de 28 de outubro de 1943, criando a C.A.N.D no território federal de Ponta Porã, Getúlio Vargas recendia um contrato celebrado setenta e poucos anos antes. Pelo decreto presidencial, o governo brasileiro rompia definitivamente, um trato feito com a Companhia Mate-Larangeira, fundada pelo gaúcho Thomáz Laranjeira, datado da época do regime imperial. Desta maneira, concluo minhas averiguações sedimentadas nos homens pilchados, cujas biografias querem mudar, os fazendo ficar vermelhos de raiva na eternidade, como a cor dos seus ponchos, ao coruscarem a beleza cristalina das verdades...
advogado criminalista, jornalista.