14/10/2011 18h23 - Atualizado em 14/10/2011 10h23

Novas conquistas

 

Isaac Duarte de Barros Junior

Quando aquele êxodo de migrantes, que eu chamei pátria a cavalo, deixou as paragens sulinas escoltando carretas, trazendo consigo mulheres, crianças e mantimentos em seu bojo, fazia pouco tempo que havia terminado o maior conflito bélico sul-americano. Todavia, naqueles idos, seguindo seu curso pelas antigas rotas boiadeiras, aqueles pioneiros rumaram para o centro-oeste brasileiro. A maioria deles estava esgotada, cansada das lutas sem tréguas e buscava lugares ainda não desbravados. Enfim, eram viajantes que sonhavam com novas conquistas. Acostumados a fazer essas longas jornadas de enfrentamentos perigosos e a transpor vicissitudes comuns na época, esses pioneiros passaram pelas charqueadas e velhas pousadas, onde nessa marcha, incluía-se a travessia de rios caudalosos, ainda sem pontes.

Mas foi dessa maneira no século dezenove, que os povoadores de Dourados e região, cansados das peleias, deixaram as refregas de Bagé, Uruguaiana, São Borja e São Luiz Gonzaga. Esses centauros dos pampas, vaqueanos, eram amigos dos índios guaicurus. Amizade respeitosa, feita na liça da guerra no Paraguai. Pois essa admiração entre exímios cavaleiros, com o tempo, formou um laço de fraternidade forte. Falam alguns historiógrafos, que na troca de conhecimentos culinários entre os brasileiros e aqueles índios, muitos gaúchos aprenderam a degustar a chipá-guazú, borí-borí e lôcro, comidas típicas do Paraguai e também a tomar o tereré, uma fusão da erva mate preparada com a água mais fria das nascentes dos límpidos mananciais da época.

Em troca, esses brasileiros ensinaram os diversos segredos da maneira de como fazer um suculento churrasco, carne assada no calor dos braseiros e temperada com sal grosso empedrado, misturado na água morna, com a qual molhavam o assado, lentamente passando-a numa palha seca do milho. Nesses ensinamentos, se um lado mostrou como preparar carnes das ovelhas e dos porcos domésticos, por seu turno, os índios ensinaram tirar a catinga natural dos animais silvestres. Entre eles, as de queixadas e capivaras. A língua guarani, então ainda um dialeto cheio de monossílabos, fez parte dessa troca de conhecimentos. Entretanto, os gaúchos, embora aprendendo a falar corretamente o guarani, estes decidiram difundir a língua portuguesa, expandido sem saber das consequências desse ato, as novas fronteiras brasileiras conquistadas.

Articulador e incentivador de um encontro regionalista recente na fronteira com o Paraguai, o jornalista Claudio Xavier conseguiu reunir em Ponta Porã, a tradição pilchada de descendentes daqueles chimangos e maragatos. Nas orgulhosas vestes, lembravam aqueles homens e mulheres de idades diferentes, da epopeia migratória gaúcha em Mato Grosso do Sul. Cujo maior expoente, sem dúvida, foi o ervateiro Thomaz Laranjeira. Nessas horas comemorativas, sei que fez imensa falta na programação, palestrantes como Ney Ramão Magalhães, pois enquanto ele existir, ninguém dessa nova leva de migrantes, ousará mudar a verdadeira história regional. Refiro-me, a escrita e encilhada no lombo do pampa, retirando-a somente na chegada dos iniciais desbravadores, nas terras onde outrora já foi Paraguai.

Enquanto que aqui douradenses natos, certamente pela pouca participação em política, outros sem vínculos com os pioneiros, não mostram interesses em falar das raízes e de pessoas que fundaram esta terra. Dessa forma prosseguindo, qualquer morador de vinte anos, se enfeitará como grande conhecedor da história local. Porque, ilustres desconhecidos, hoje já emprestam seus nomes aos lugares públicos, enquanto que fundadores das mais diferentes profissões, como seus corpos mortos, desaparecem nas brumas do tempo. E não bastassem esses atentados em desfavor da memória local, graças ao trabalho dos forasteiros estabelecidos em lugares estratégicos, aos poucos cria-se uma nova história douradense. Agora, só falta usarem do ardiloso argumento, que a história não é feita de verdades absolutas, para mudarem a história sul-mato-grossense...

advogado criminalista, jornalista.


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