Isaac Duarte de Barros Junior
Com a movimentada febre de intelectualidade desconhecida, rotulando-se na mídia local como escritores (muitos sem livros lançados), articulistas, palestrantes ou historiadores, chego a ter estuações, tamanho o meu espanto. Lendo atenciosamente seus textos minutados, percebo que eles pouco sabem a respeito dos acontecimentos históricos douradenses e do pioneirismo desta região. Preocupei-me, com a capacidade de alguns desses intelectuais, mudando fatos que envolvem o começo do povoado douradense. Enfim, para comprovarmos a existência dessas narrativas, que inventam datas, títulos, quilombos e nomes pioneiros, bastaria manusear as páginas culturais da imprensa impressa ou acessar alguns sites proliferados na internet.
A maioria deles, tomando pés pelas mãos, num evidente objetivo de saírem do anonimato, escrevem, consomem e comentam bobagens. Afinal, os nossos primeiros habitantes, viajantes que aqui fincaram raízes, foram migrantes nascidos no século dezenove. Uns trabalharam na pecuária, outros agricultaram terras. Sendo desafortunados, garimpavam novas oportunidades. Muitos eram gaúchos da fronteira e região missioneira, diversos foram índios nômades e homens negros combatentes da guerra no Paraguai, que alforriados tornaram-se cidadãos livres. Nesse contexto histórico, viveram os fazendeiros Joaquim Teixeira Alves, Marcelino Pires, Izidro Pedroso e João Vicente Ferreira, os quais eram posseiros e posteriormente foram transformados pelas circunstancias em latifundiários.
Tais conclusões, pedaços retirados de um período da história douradense, consegui pesquisando. Enfim, por meio século, estudei esse aspecto. Dele, extraí verdades, principalmente porque sou douradense nato. Portanto, alerto aos mal intencionados historiadores, que no ano de 1935, a cidade de Dourados não começou. Ao contrário, como promissor distrito pontaporanense, povoado há mais de sessenta e cinco anos, nessa ocasião reunindo todas as condições para emancipar-se, conseguiu. Desse modo, respeitaram-se todas as normas exigidas em lei, datadas da época do interventor Dr. Mário Correia da Costa. Este médico governava Mato Grosso e foi quem elevou Dourados à categoria de município por Decreto Estadual datado de 23 de dezembro daquele ano. Resta saber qual deputado estadual, seria o autor dessa proposta municipalista, aprovada por maioria de votos na Assembléia Legislativa em Cuiabá.
O primeiro prefeito eleito pelo povo douradense, confiram os intelectuais querendo, foi um paraibano chamado Antônio de Carvalho. Seu mandato transcursou no período de 1948 a 195l. Enquanto que seus antecessores municipais, todos a partir de 1936, foram nomeados para exercerem esse honroso cargo. Todavia, apenas dois douradenses natos, o Dr. Horácio Vicente de Almeida e João “Totó” da Câmara, chefiaram a casa que abriga nosso executivo municipal douradense. Os demais ex-prefeitos, inclusive o atual Dr. Murilo Zauith, paulista de nascimento, são explanes brasileiros migrantes. A propósito de migrantes, o penúltimo prefeito eleito, era um gaúcho que renunciou seu mandato, após ser preso acusado de improbidade administrativa.
Nos bastidores municipais, secretários técnicos se destacam, dentre eles Antônio Luís Nogueira, residente aqui há quarenta anos. Esse matogrossense de Ponte Branca, que em tempos idos concorreu à prefeitura douradense, enfrentando um boiadeiro perdeu aquelas eleições. Dessa maneira, escolher candidatos oposicionistas, ao invés dos situacionistas, é costume dos eleitores destas plagas. Ademais, colaboramos com erros históricos, admitindo tipificarem Marcelino Pires, como fundador desta cidade. Porque, embora creditado doador da área onde os pioneiros ergueram o município, Marcelino Pires nunca doou terra alguma.
Aliás, esse documento da tal doação, jamais existiu. Pois, Marcelino Pires, enfermo terminal, morreu posseiro em 1915, não podendo doar terras que não eram suas. Quanto à fazenda “Alvorada”, os descendentes do Marcelino Pires só adquiriram o domínio pleno, depois da sua morte. O mesmo ocorreu, com familiares do pioneiro Joaquim Teixeira Alves. Concluo, depois de auferir documentos, pesquisando-os exaustivamente, juntando depoimentos de verdadeiros pioneiros douradenses, recomendando prudência aos contadores de estórias...
Advogado criminalista, jornalista.