Isaac Duarte de Barros Junior *
Somos “capim rasteiro que do nada se criou”, assim os nascidos na região missioneira rio-grandense, identificavam-se na época das migrações, feitas em carretas puxadas por juntas de bois, fase quando viajaram na direção destas paragens. Diziam às vezes também: “viemos do garrão brasileiro”, geograficamente respondendo perguntas, explicando as suas procedências. O lendário coronel Ponciano de Mattos Pereira, por exemplo, foi o criador do distrito de Dourados, exercendo mandato de prefeito pontaporanense.
Nascido em 1845 nas serranias de Torres, gonzaguense de coração, Ponciano situava-se dessa maneira. O interessante nesse homem, tomador de seiva bruta (chimarrão), era a maneira lhana como ele cultivava suas amizades. Certa vez, galhofando, apelidou o seu conterrâneo Izidro Pedroso, como o “bugre de Bagé”. E esse apelido grudou ao nome do meu avô, para o resto da vida. Quis ainda o destino, que o coronel Ponciano de Mattos, não pudesse ver Dourados emancipada em 1935. Porém, amigo do governador Mário Correia da Costa e do presidente Getúlio Dorneles Vargas, o gaúcho Ponciano de Mattos foi delegado, juiz de direito e de paz, na cidade fronteiriça de Ponta Porã.
Entretanto, de toda essa gauchada migrante que apareceu aqui, carreteando ou montada em lombo de cavalos no século passado, transitando pelo Mato Grosso uno, nem todos tiveram conduta honrada como a maioria. Um deles foi o ex-capitão da guarda nacional, malfeitor chamado Silvino Jaques. Ele, entre esses migrantes sulinos, destacou-se como bandido cruel. Foi bandoleiro e gaiteiro de bailes animados. Todavia estuprou, saqueou, matou e aterrorizou os antigos fazendeiros pantaneiros. Isto, até ser morto e ter as orelhas cortadas pelo delegado murtinhense Orcírio dos Santos, pai de um recente ex-governador sul-matogrossense, batizado com o mesmo nome.
Já o capitão gaúcho Luiz Carlos Prestes, comandante da Coluna Prestes, partiu rebelado do levante de Santo Ângelo e militarmente percorreu trinta mil quilômetros desde a região sul. Nessa cavalgada socialista, o “cavaleiro da esperança” passou por Dourados. Atravessando seus comandados pelo imenso pantanal alagado, este homem rebelado com o governo federal de Getúlio Vargas, nas suas andanças belicosas brigou e tinha motivações políticas peleando com aquela tropa. Mas, mesmo marcando posições bastante divulgadas na mídia nacional daquele tempo, algumas reivindicações restaram infrutíferas.
Destarte, era pela antiga rota belavistense, que os gaúchos desbravadores de Dourados, viajando por picadas carreteiras, antes passaram pela cidade de Corrientes na Argentina, nesses deslocamentos pioneiros. Sem haver estradas conhecidas, essas viagens aventureiras, demoravam meses. Todavia, expressivo numero de migrantes gaúchos, nossos ancestrais desbravadores, entravam vagarosamente pelo departamento de Itapuá no Paraguai, fazendo outro percurso sofrido, o qual terminava no povoado de Ponta Porã. Todavia, desfavorecendo esses gaúchos cansados das lutas em revoluções, pesavam as suspeitas de haverem praticado matanças envolvendo pessoas inocentes, ainda que nos combates. Dessa forma, desesperados naqueles dias, eles tentavam escapar dos vencedores, fugindo com esposas e filhos. Fossem pegos, haveria esgorjamentos (degolas), ocasiões horripilantes, quando ninguém daquelas famílias, se alcançados, era poupado pelos inimigos.
Por isso, fugiam bem agasalhados, dormindo perto dos aconchegantes lenhos em brasas, acesos no meio dos galpões. Entretanto, esses brigões sulinos só engoliam a valentia cuiúda, para protegerem a prole. Meio tresnoitados, muitos partiam no primeiro canto do galo, quando saciavam o jejum noturno. Na fuga, iam perdendo nas distancias inóspitas do trecho, os seus laços nativistas. E isso acontecia, à medida que esses cavaleiros distanciavam-se daqueles frios ventos uivantes dos pagos do sul. Lugar, onde abandonada a velha tapera, deixaram sua morada açoitada pelo minuano. Nessas horas, saudosos na solidão retirante, a mãe da piazada rezando para Santa Bárbara, foi sempre a fiel companheira dessas jornadas exaustivas...
advogado criminalista, jornalista. *