Isaac Duarte de Barros Junior *
Quando o velho Mato Grosso começou a ser desbravado, em Dourados no final do século dezenove, as vestimentas domingueiras masculinas e femininas, seguiam um estilo bem gauchesco. E o uso dessas indumentárias tradicionalistas, graças aos instantes congelados no tempo pelas máquinas lambe-lambe, iguais a do Raul Frost, restaram comprovados. Esses aparelhos de fotografar imagens em cártulas, modernos para a época, testemunharam vários momentos históricos. Assim, muitos profissionais da fotografia, clicaram essas ocasiões, testemunhando atos das pessoas e seus costumes.
Ouso afirmar, que caso não tivesse existido esses fotógrafos, operando nas ocasiões especiais, a nossa história visual seria contada em suposições. Mas, na metade daquele século das invenções, a fotografia apareceu como novidade no mercado e logo passou a ser um charme, integrando-se rapidamente nas temporadas festivas. Entretanto, a maioria da população no inicio do século vinte, se recusava arredia, ser fotografada.
Supersticiosos, havia uma crendice popular, que aquele aparelho de tirar retratos, inventado pelo francês Louis Daguerre, fotografando-as posadas, furtava-lhes a alma. E tal crença, ficou tão disseminada nesse período ignorante, que restaram daquela época, apenas algumas velhas fotos amareladas, conservadas em álbuns da capa grossa, do acervo das famílias antigas.
Inclusive, esses fotógrafos pioneiros, só documentaram aquele passado bucólico, paisagens e mansões copiadas das congêneres europeias, ao fotografarem o cotidiano popular. Ademais, a forte presença da migração gaúcha iniciada em 1880 no estado de Mato Grosso, estimulou os desbravadores mineiros, paulistas e goianos, a vestirem nas bailantas, as mesmas roupas usadas nos pampas sulinos. Dessa forma, unicamente nessas ocasiões, os fotógrafos tinham possibilidades de reproduzir fotos, documentando gente cabocla reunida. Galba Palhano, douradense bandoleiro, justiceiro e assassino, sempre caprichava na aparência, fotografado.
Gostando de vestir bombachas, também usava lenço vermelho no pescoço, completado pelo chapéu de aba larga na cabeça. Destarte, fotógrafos o imortalizaram, nas poucas fotos que tirou. Normalmente, Galba trajava roupas, semelhantes as do criminoso Silvino Jacques, homem difícil de ser fotografado. Coincidentemente, ambos foram assassinados pela captura estadual e como de costume, sendo bandoleiros mortos pela milícia, foram fotografados verticalmente dentro dos caixões, posicionados em rigidez cadavérica.
Tendo ao lado seus algozes, muitos bandidos famosos terminaram os dias de atrocidades, fotografados pelas famosas máquinas lambe-lambe, posando mortos nessas derradeiras fotos. Enquanto isso, mulheres pioneiras, sem carregar muito na maquiagem, vestiam modelitos cobrindo as pernas, braços e pescoço. Geralmente, envergavam vestidos longos e pesados, costurados em tecidos de chita. Dessa forma, se olharmos os retratos amarelados dessas donzelas, até parece que elas só usavam os últimos trajes da moda.
Todavia, havia certos inconvenientes nessas vestimentas femininas, vez que os vestidos longos arrastavam-se no chão batido, quando essas mulheres dançavam nos galpões de festas, juntando pó. Tal contratempo obrigava-as a limpa-los nos intervalos, esfregando panos molhados, que retiravam as sujeiras acumuladas nas dobras rendadas dessas roupas. E isso afirmo, usando por referencia, fotos das maquinas lambe-lambe. Pois, a ousadia daqueles fotógrafos, paparazzi ancestrais, clicou diversas vezes o sexo frágil limpando-as.
Por seu turno, muitos presidentes da república, senadores, e governadores, nascidos no século dezenove, jamais permitiram que fotografassem seus rostos nas campanhas eleitorais, nos atos religiosos, ou no exercício dos seus mandatos. Esses comportamentos medrosos acredito se davam, devido às superstições comuns nas suas bases eleitorais. Porque, representavam regiões brasileiras, onde até agora, as pessoas acreditam em botos encantados virando homens, lobisomens e mulas sem cabeça. N’algumas comunidades interioranas, para exemplificar, ainda existe vigílias permanentes, esperando o mundo acabar. Certamente lá, a presença de fotógrafos e cinegrafistas, causaria pânico nos moradores, onde não relutariam em matá-los, queimando-os como bruxos e demônios da arte “maléfica” de fotografar...
advogado criminalista, ex- jornalista militante.