09/02/2012 17h22 - Atualizado em 09/02/2012 17h22

Carreiradas Domingueiras

 

Isaac Duarte de Barros Junior *

Outrora, ancestrais de muitos douradenses natos, inclusive os meus, gostavam de ver animais cavalares bem tratados, lado a lado nas pencas em cancha reta, prontos para disputar uma corrida de cavalos. No alvorecer do século vinte, esse tipo de esporte foi o preferido das antigas famílias douradenses. As carreiras ou carreiradas, como eram conhecidas essas famosas catadupas de cavalos na época, sempre aconteciam em domingos ensolarados, no pequeno vilarejo.

Assim, quando o povoado era ilhado por propriedades rurais, nessas tardes de domingo, nas imediações da Cabeceira Alegre, numa área cedida pelo fazendeiro Izidro Pedroso, faziam-se as maiores apostas, e como não era costume o uso do dinheiro, se apostava bois e boiadas. Naquele local, as carreiras só chegaram ao fim, quando assassinaram um dos filhos daquele fazendeiro, esse moço chamava-se Júlio. Inclusive, essa contenda transformou-se numa espécie de domingo sangrento, pois Arlindo irmão de Júlio, então com quinze anos, matou o assassino na mesma briga, alvejando-o em ato subsequente de legítima defesa, com a arma do algoz em punho ainda fumegando na mão.

Como carreiradas, naqueles tempos idos, foram marcantes momentos de lazer dos nossos pioneiros, logo elas começariam a ocorrer em outros locais da região, um destes no Potreiro Guassú, sob a iniciativa da família Mattos. E a maioria desses homens macanudos, migrantes gaúchos da região de São Luiz Gonzaga, gostavam de realizá-las. Deles, o coronel Ponciano Pereira de Mattos, mais tarde criador do distrito douradense, passaria a difundi-las, participando ativamente do esporte. Logo, na década de vinte do século passado, esses encontros sociais tiveram a adesão da família Vieira, dos Urbanos da Silva e de muitas outras. Entretanto, as brigas continuaram surgindo nas carreiras, embora nunca tivessem ligação com os donos dos cavalos de corridas, exceto uma que envolveu o fazendeiro Dioclécio Paim, seus filhos e outra família, em tiroteio seguido de morte.

Enfim, carreiradas foram à diversão predileta dos desbravadores destas terras, ou aquilo que esportivamente eles mais gostavam de assistir e apostar. Naquele tempo, em charretes, carroças e lombo de cavalos aperados, famílias inteiras trajando vestimentas dominicais, se deslocavam para essas canchas retas. Ali, geralmente havia árvores frondosas, buraco cavado no chão, feito para assar churrasco, e em jarras servia-se sucos, sem olvidarem da aguardente cachaça, ingerida no bico da garrafa. Cerveja e gelo, muitos não sabiam da sua existência, nem por ouvir falar.

Outros, contavam que era um líquido espumoso, servido nas grandes cidades brasileiras e no exterior. Todavia, o chique nesses turfes naqueles tempos passados, era desfilar com vestidos de chita, usados pelas mulheres ricas. Já para cavalheiros, recomendava-se bombacha larga, botas acompanhadas de esporas, lenço no pescoço e chapéu quebrado na testa. Certamente, esse modo de vestir, foi considerado a vestimenta mais fina e de extremo bom gosto no começo do século vinte. Aliás, tudo isso masculinamente pilchado, era complementado pela guaiaca recheada de balas, naturalmente do calibre quarenta e quatro.

E essas histórias, que ouvi meus parentes narrarem, floresceram entre as minhas lembranças, graças ao excelente artigo que eu li, comentando a negligencia da parte do poder público municipal no Jóquei Clube, da lavra do escritor José Alberto Vasconcelos, hoje advogado aposentado, mas articulista ativo. Afinal Humberto Teixeira, um ex-prefeito de Dourados, igual aos pioneiros, pessoas que gostavam das corridas dominicais de cavalos, deve também sentir uma grande tristeza, vendo o nosso Jóquei Clube desprezado, mesmo tendo sido obra destinada ao turfe local, inaugurada na sua administração. Ali, Humberto Teixeira inaugurando-o, tomou cautelas, contratando o veterinário Alisson Pedroso, para atender os eqüinos. Entretanto, essa obra abandonada, foi invadida pelos sem teto...

advogado criminalista, ex-jornalista militante

 
 
 
 
 
 
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