Dourados – MS quinta, 19 de julho de 2018
Wilson Valentim Biasotto

Fragmentos de uma carta enviada ao presidente Lula

14 Abr 2018 - 07h00
Me disseram: "você defende tanto o Lula, por que não vai lá com ele?". Ressalvada a sua estatura como homem público, creio que durante toda a minha vida estive com você, seja no trabalho pela subsistência, pelas ideias que comungamos, nas injustiças que sofremos, nas lutas sindicais e por não renegarmos a nossa origem e lutarmos pelos nossos iguais.

Estamos juntos, como também estão com você todos os que alimentam a esperança e lutam por uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais igual.

Pessoalmente também nos encontramos várias vezes. Três merecem destaque:

1ª - Em outubro de 2001, quando uma multidão o acompanhava em Dourados, intermediei a entrega do CD "Canto Caiuá", que deve estar nas arcas, com outros presentes que você recebeu. Os índios de Dourados o têm em grande apreço, porque em seu governo foram construídas mil casas, estendida a rede de água por toda a Reserva e oferecidas bolsas para que saíssem da miséria.

2ª – Esse outro encontro foi hilário. Era Secretário de Governo de Dourados e fui representar o prefeito Tetila em uma cerimônia de lançamento de um de seus inúmeros programas educacionais. Acompanhou-me um professor que ficou incumbido de tirar algumas fotos. Ao terminar de cumprimentá-lo, o colega, constrangido, me informou que a sua câmera estava sem pilha. Chamei um fotógrafo profissional e pedi-lhe que me fotografasse cumprimentando-o. Corri para o outro lado do grupo e apertei-lhe novamente a mão. O senhor olhou para mim como quem diz "uai"! Mas vim com a foto, que me custou cinquentão.

3ª – A terceira lembrança de um encontro nosso é inesquecível. Foi em sua sala, no Palácio do Planalto. Estávamos, lá, o governador Zeca do PT, o senador Delcídio, o deputado João Grandão, o prefeito Tetila, o prof. Damião Duque de Farias e eu. Já tinha passado das 18 horas, mas o seu semblante não demonstrava cansaço. Brincou conosco, especialmente com o governador e, nesse encontro histórico, o senhor nos garantiu a criação da UFGD. Foi grande a nossa alegria, e eu aproveito esse ensejo para agradecer-lhe não somente pela UFGD, mas pelas dezoito Universidades que você criou, pelos Centros de Ensino Técnico e por ter recuperado as Universidades, promovendo o preenchimento de mais de 8 mil vagas e, por via de consequência, fortalecendo o ensino público, gratuito e de boa qualidade.

Por falar em Universidades, aproveito para agradecer-lhe também por todas as oportunidades que o senhor abriu para que os negros, os índios, os estudantes pobres, em geral, pudessem frequentar uma escola de nível superior. Se a nossa gente excluída tivesse tido oportunidades anteriores, talvez tivéssemos formado mais médicos, mais bacharéis e juízes com o olhar voltado para a proteção dos oprimidos.

Teríamos formado também mais cientistas sociais, filósofos e historiadores. Aliás, sou historiador, lá de Catanduva, onde você ouviu uma menina reproduzir a frase de Che Guevara [repetida em seu pronunciamento de 7 de abril deste ano] que "os poderosos podem matar uma, duas, três rosas, mas não impedirão a primavera".

Mas, presidente Lula, depois da graduação, especializei-me em História do Brasil em Ribeirão Preto, a Califórnia brasileira, cidade que me inspirou a defender a ideia da UFGD desde o início dos anos de 1980. Na Universidade de São Paulo, fiz o mestrado e o doutorado em História Social, o que me possibilitou uma visão ampla da história. Falo de meus estudos não por soberba, mas porque eles me credenciaram também a reconhecer no senhor um dos mais respeitados intelectuais e estadista brasileiro.

No meu caso, a soma de minha origem com os meus estudos é que fizeram de mim um pensador de esquerda, no seu caso também. Muitos não sabem, mas a economista Maria da Conceição Tavares revelou que o senhor passava os finais de semana em São Paulo, participando de seminários com os mais conceituados intelectuais brasileiros. Significa dizer, juntou a sua origem com os seus estudos e se transformou no melhor presidente que o Brasil já conheceu.

Resistiremos. Força! Lembre-se de B. Wotton, citado por Suplicy: "é dos campeões do impossível muito mais do que dos escravos do possível que a evolução emana a sua força criadora" [ carta completa in: www.biasotto.com.br ].

Membro da Academia Douradense de Letras. ([email protected])

Deixe seu Comentário