Educação e retrocesso

Por: Wilson Valentim Biasotto - 17/12/2016 06h00

Há mais de 30 dias, livrei-me das caras de botox e sorrisos calculados dos comentaristas globais e passei a formar opinião pela Internet. Fugir da grande mídia não é tão difícil. Difícil é fugir da realidade. Então é preciso retomar leituras clássicas, aprender, avaliar, refletir sobre a realidade e posicionar-se sobre ela. Dentre várias obras consultadas, um achado importante foi "A questão política da educação popular", de Alda Ribeiro e Outros. No prefácio, Antônio Cícero de Souza, dá a palavra a Antônio Ciço, lavrador de sítio na estrada entre Andrada e Caldas:

"...o que é Educação? ... o senhor fala ‘Educação’; daí eu falo: ‘Educação’. A palavra é a mesma, não é? A pronúncia, eu quero dizer. É uma só: ‘Educação’. Mas então eu pergunto para o senhor: É a mesma coisa? É do mesmo que a gente fala quando diz essa palavra? Aí eu digo: "Não".

E continua Ciço: "Tem uma educação que vira o destino do homem, não vira? Ele entra ali com um destino e sai com outro. Quem fez? Estudo, foi estudo regular: um saber completo. Ele entra dum tamanho e sai do outro. Parece que essa educação ...tem uma força que tá nela e não tá. Como é que um menino como eu fui mudá num doutor, num professor, num sujeito de muita valia?"

A entrevista, transformada em prefácio, foi longa e deu-se em 1980. Desde então tudo mudou para permanecer no mesmo, uns com muito, outros com pouco ou nada. Ciço tinha na enxada a sua cartilha, nas mãos calejadas o seu aprendizado. Os trabalhadores atuais têm mais máquinas, menos calos, no entanto, quando as possibilidades de estudos para a sua liberdade surgem, sempre acontece alguma forma de retrocesso.

Tivemos um claro exemplo entre 1959 e 1964, quando nos tempos de Getúlio e Juscelino houve concomitante com o desenvolvimento econômico, uma esplendida expansão do ensino médio e uma reformulação dos objetivos das Universidades brasileiras, abrindo possibilidades aos menos favorecidos. Os movimentos de alfabetização, completamente diferentes das orientações governamentais de outrora, que somente traziam a reprodução do modo de pensar da classe dominante, alterou-se, buscando-se uma educação para a democracia e para a liberdade. E que aconteceu com o sistema de ensino? Foi castrado pela ditadura iniciada em 1964 que, com o pretexto de combater o comunismo, entregou o Brasil ao capital internacional e relegou o pobre à sua pobreza física e intelectual.

A partir de 2003, novo arranque na educação, a Esquerda chegou ao poder, edificou Institutos de Educação, criou Universidades e equipou as já existentes e deu condições aos pobres de atingirem o sonho de fazer de um filho um doutor. E o que aconteceu? Novo golpe, agora legislativo-jurídico-mediático, não necessariamente nessa ordem. O pretexto foi a corrupção, que hoje se vê, era prática exercida com muito desenvoltura pelos golpistas que derrubaram a presidente Dilma. E com o golpe novo massacre aos pobres, seja com a PEC 55 (a PEC da Morte), seja com a Medida Provisória que reforma o ensino de 2º Grau, seja com a reforma da Previdência que se encaminha.

Mas, aos que desejam, mais uma vez, o retrocesso do povo, defendendo a escola sem partido, busco nas Cartas de Paulo Freire para São Tomé e Príncipe as palavras do presidente Pinto Costa: (a alfabetização) "como método cultural de conscientização, tem de ter um caráter essencialmente político. (...) Sempre dissemos que não podíamos confiar a tarefa da educação a professores "neutros", ‘apolíticos’... "

É isso, não existe educação neutra. Mas não desejo afirmar que o sensível avanço sofrido pela educação brasileira entre 1959/1964 e 2003/2015 tenha sido diretamente responsável pelos golpes de 64 e 2016, no entanto, nas duas oportunidades ela sofreu consequências funestas. Em 1964, com a retirada de filosofia, história, sociologia e a introdução de estudos sociais e estudos de problemas brasileiros; agora chegamos ao cúmulo de termos uma reforma privatizante, por intermédio de uma medida provisória. Por outro lado, se os golpes não foram unicamente para mediocrizar a educação e conter um avanço dos pobres, também nem o comunismo e nem a corrupção foram motivadores dos golpes. A verdade é que, quando aparece uma luzinha no fundo do túnel para o povo, a plutocracia atropela e tudo volta a ser como dantes.

Membro da Academia Douradense de Letras. e-mail: biasotto@biasotto.com.br