23/09/2011 14h27 - Atualizado em 23/09/2011 11h27

O resto é ilusão!

 

Dom Redovino Rizzardo

É interessante constatar que quanto de bonito ou menos bonito nos acontece, quanto de direito ou de torto sucede em nossa vida, tudo chega até nós com uma linguagem variada e di-versificada, como ensinamento ou confirmação de quanto pensávamos ou temos ouvido dizer, ou podido ler e estudar nos livros. Em outras palavras, é o que a Bíblia ensina desde a mais re-mota antiguidade: «O olho não se farta de ver, nem o ouvido de ouvir. O que aconteceu, de novo acontecerá. O que se fez, de novo será feito; debaixo do sol, não há nenhuma novidade» (Ecl 1,8-9).

Lembrei-me destas palavras ao conferir a entrevista concedida por João Havelange a uma revista brasileira, no mês de julho. Aos 95 anos, depois de ter dedicado toda a sua existência ao esporte e de ter ocupado, por mais vezes, a presidência da Fifa, assim sintetizou sua experiência de vida: «Uma noite, quando eu já estava com 80 anos, comecei a pensar que era hora de parar. Muitas vezes não sentimos, mas a partir dos 80 anos, começamos a descer a escada da vida. Todo dia é um degrau para baixo.

Apesar de ainda me sentir bem, fui para casa. Quando se des-cem os degraus ainda no poder, tudo o que se conquistou é esquecido. A única coisa que as pes-soas dizem é “coitado, como ele está mal!”. Esse é o mal de muitos políticos no mundo: nin-guém quer sair. Ficam por vaidade, por um poder que é uma ilusão».

Não é por nada que o livro do Eclesiastes, acima citado, começa com estas palavras: «Ilu-são das ilusões, tudo é ilusão! Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol? Geração vai, geração vem, e a terra permanece sempre a mesma!» (Ecl 1,2-4). Na verdade, são poucos os que olham para a experiência acumulada pela humanidade ao longo dos séculos como uma escola de vida. Cada um pretende construir o seu caminho, mesmo que o desfecho seja o já previsto por Havelange e pela Bíblia.

Para que não precisem se arrepender no fim da vida, quando o tempo se faz breve e o re-começar fica difícil, Deus oferece a seus filhos um tesouro tão escolhido que, quando aceito, imprime um sentido novo à existência. Só que, para obtê-lo, é preciso “vender” tudo o que im-pede de adquiri-lo: «O reino dos céus é como um homem que procura pérolas preciosas. Quan-do encontra uma de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e a compra» (Mt 13,45-46). Se, para os verdadeiros cristãos, esse tesouro é Deus, também o contrário é verdadeiro: nós é que somos o tesouro de Deus! Quando se faz essa descoberta, é uma vida nova que se descortina, onde o amor e a liberdade, a alegria e a paz, a coragem e a confiança deixam de ser palavras vazias.

Foi o aconteceu com Jerry Winkler, um holandês de 28 anos, que vivia nas ruas de Ams-terdã quando descobriu que era filho único de um homem de negócios multimilionário, com quem sua mãe tivera uma aventura amorosa. «Foi um giro de 180 graus», explicou a um canal de televisão. «Eu vivia nas ruas e, poucos dias depois, dormia num apartamento, com muito dinheiro no banco... Voltei a viver».

A infância de Jerry fora traumática. Quando sua mãe adoeceu e morreu, foi acolhido por um homem, que ele acreditava ser seu pai. A relação com a nova família, porém, foi complica-da, tanto que acabou internado num abrigo para menores.

Durante cinco anos, perambulou de casa em casa, até cair na delinquência e nas drogas. Após uma discussão familiar, veio a revelação que não esperava: «Tive uma briga; foi então que meu padrasto gritou que não era meu pai. Aí eu disse: agora entendo porque ele está sempre contra mim. Foi mais um duro golpe em minha vida: primeiro, morre minha mãe e, depois, meu pai diz que não é meu pai».

A partir de então, Jessy passou a procurar seu verdadeiro pai: «Todos queremos saber de onde viemos. Ainda que meu pai já estivesse morto, posso comparar a sua história com a minha e ver como somos parecidos». Com o dinheiro recebido e inspirado em sua própria história, Jerry criou uma fundação «para jovens sem-teto que não têm meios para fazer algo de suas vidas», como ele mesmo ex-plicou.

Na opinião de seus admiradores, foi essa decisão a verdadeira fortuna que enriqueceu a vida do ex-morador de rua de Amsterdã. O resto é ilusão. Palavra de João Havelange!

Bispo diocesano


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