Das entranhas do jogo nascem os "avarentos e ladrões"!

Por: Antonio Carlos Siufi Hindo - 23/12/2016 08h27

Quando no dia 28 de junho de 1977 foi promulgada a Emenda Constitucional de autoria do eminente senador Nelson Carneiro pelo Estado do Rio de Janeiro, que instituiu o Divórcio no Brasil, parecia que as famílias brasileiras sofreriam a maior tragédia que uma instituição secular poderia protagonizar. O seu esboroamento. A sua aprovação foi antecedida de uma batalha titânica. No final venceu o bom senso. O Divórcio foi implantado. As famílias não se esfacelaram. Os que se divorciaram receberam o perdão de Francisco.

Faço essa reflexão para melhor compreender uma difícil batalha que será travada no âmbito do Congresso Nacional, e que está relacionada com a legalização dos cassinos. A família, novamente estará no centro das discussões. Trata-se de um tema polêmico. Implica na defesa de valores construídos pela nossa sociedade ao longo dos séculos. As partes envolvidas diretamente sobre os destino desse processo legislativo têm suas razões próprias e fundadas. Elas são apaixonantes, geram créditos, despertam confiança. Por isso será uma batalha gigantesca. Do seu debate surgirá o mais forte indicativo a apontar o melhor desfecho.

Para os que defendem a sua implantação resultará evidenciado um avanço do Estado brasileiro diante das nações desenvolvidas que, em sua maioria esmagadora, já legalizou essa prática. Para os que são contra oferecerão como resistência os valores sagrados que alcançam a família e os seus princípios, que lhes dão sustentação.

Ninguém discute o valor da família no contexto da história da humanidade. Sua origem é divina. É dali, que surge a grandeza da Pátria. Do seu seio, sempre generoso encontramos a essência dos homens de bem. Em razão disso todo o cuidado é pouco quando se trata do envolvimento de um de seus membros com essa prática perigosa. O jogo é um vício nojento. No bico da pena do banqueiro e da banca será escrita o destino daqueles que não honrarem seus compromissos. Nesse tipo de comércio não existe a palavra perdão. Eles não tem compaixão de ninguém. É assim que gira esse comércio, em qualquer parte do nosso planeta. A questão é conhecer os limites dos apostadores. Algo impossível de identificar diante da enorme atração que todos possuem e nutrem pelas suas ações envolventes e enganadora. Isso é uma verdade sem sofismas.

O jogo, sempre acompanhou o homem ao longo da história. Fica difícil precisar historicamente em que momento da humanidade o homem canalizou e colocou pautas em seus entretenimentos para obter deles um ganho. Ninguém abordou melhor esse tema do que Aristóteles. Ele salientou que o jogo não tem como fundamento primordial a sua origem tenebrosa, senão a qualidade dos jogadores aos quais cataloga como " avarentos e ladrões ". Aqui está o embrião da questão a ser enfrentada. Isso precisa ficar bem esclarecido para o conjunto da população.

A Família por essas razões dificilmente será afetada porque o seu alicerce está respaldado na força do diálogo e do amor. As pessoas na sua grande maioria conhece e obedece os seus limites. Em razão disso não interessa ficar discutindo as questões positivas que decorrerão da sua implantação em termos de geração de emprego, renda, investimentos estrangeiros e a melhoria substancial do nosso produto interno bruto. Tampouco, importa saber se o jogo regularmente aprovado será utilizado para lavar o dinheiro do contrabando, do tráfico e da corrupção. Esse tipo de ação criminosa já existe. E com grande sofisticação.

Os noticiários todos os dias desnudam essa ação sórdida. A família não será atingida. Continuará fortalecida pela vocação sacrossanta que a instituiu. Não podemos ser hipócritas. O jogo já existe entre nós em todas as suas dimensões. Uma parte apenas tem a chancela da Lei. Quando o Estado não quer enxergar essa anomalia abre um precedente perigoso para os " avarentos e ladrões " a que se referiu Aristóteles. A sonegação dos impostos faz deles os carrascos da desgraça social. Razão assiste a Aristóteles. Com ele somos obrigados a concordar.

Promotor de Justiça aposentado. e-mail: dr.hindo@hotmail.com