Costumes políticos da classe evangélica ou protestante

Por: Gicelia Ventura de Souza - 16/12/2016 18h02

Na tentativa de investigar o processo de formação da opinião pública e a influência para ação coletiva desses grupos, assim visando esclarecer os hábitos dessa classe de civis à luz da sociologia Weberiana e da ética protestante, o objetivo deste artigo é compreender limitadamente as transformações políticas frente as argumentações religiosas e representativas políticas da sociedade civil. Quais são esses limites? A teoria literária sem atentar ou aprofundar questões não menos importantes que tangem a política religiosa como a etnia e o preconceito racial ou da posição das mulheres no transcurso histórico.

O papel desempenhado pela crença no processo de invenção de mundos constitui matéria nobre da filosofia política na modalidade particular da criatividade humana. Nesse sentido, busca-se contextualizar Deus na história e reflexões éticas e morais no meio político. Com isso mostrar o cosmopolitismo cristão em seu viés racional voltado a formar conduta política desde a casa particular à casa pública – o Estado.

Insistindo no processo que cruza a fé e a política partidária a Frente Parlamentar Evangélica aprovou o Projeto de Lei 6.583/2013 o Estatuto da Família, a PEC 171/1993 a Redução da Maioridade Penal e a PL5.069/2013 da autoria de Eduardo Cunha que cria empecilhos para mulheres vítimas de violência sexual abortarem na rede pública. A Constituição Brasileira (1988) estabelece para nossa república federativa que o projeto de lei é discutido e votado, enviado à sanção ou promulgação e a casa revisora ou aprova ou arquiva ou rejeita. Quando concluída a votação ele é enviado ao Presidente da República que o sancionará considerando sua constitucionalidade e comunicará o veto ou promulgará a lei dentro de 48 horas. Desse jeito funciona o tempo e ação de promulgar leis.

Partindo para a teoria estritamente sociológica Giddens (2011) destaca com Weber as origens do espírito capitalista demonstrando seu desenvolvimento desde o século XVI nos primeiros centros de desenvolvimento capitalista de religião protestante, então um fato histórico também contemporâneo, ou seja, atualizável e hodierno. A rigidez dessa ética, entenda adequada ao ambiente, adequam o prazer e o divertimento ao racionalismo econômico protestante. A disciplina considerada molde que estimula a atividade econômica. A atividade profissional é vista como dever e virtude a ser desempenhada com eficiência. Logo, o dever é cumprido para com Deus no cotidiano.

Weber (2004) na obra 'A ética protestante espírito do capitalismo' compreendeu que os protestantes orientam a sua ação social compreendida no conjunto dos demais eleitores racionalmente movida pela tradição e por fins. Essas ações são orientadas umas pelas outras e desenvolvem condições propícias ao capitalismo, a cultura modificada gera novos comportamentos que objetiva estabelecer uma nova ordem moral para sustentar a essência do sistema de produção cultural, inclusive a material.

A conexão de sentido nas ações sociais não são subordinadas à psicologia ou à economia, ele buscou conhecer o que pode ser provado e pontuou duas formas de apreender o "significado" de uma ação social, a saber: uma as ações de natureza racional e outra as ações de natureza irracional tais como as reações emocionais. Sociologicamente a relação que estabeleceu foi causal e histórica para explicar esse espírito. Seu objeto e conceito de vocação em Lutero desembocou no capitalismo enquanto cultura – a cultura capitalista moderna – vivenciada pelas pessoas na condução racionalizada e metódica de levar a vida.

Relacionou à exemplo da complexidade existente nas primeiras sociedades capitalistas a ética e moralidade descendente do luteranismo – perpassando anabatistas, calvinistas, metodistas, pietistas – com a disposição do cristão reformado do século XVII que trabalha para a Glória de Deus e acredita na predestinação inclinando a situação histórica e política para o racionalismo econômico. Em tempos modernos se apresenta em traços protestantes culturais puramente religiosos. O trabalho é por isso um fim, um dever, uma adaptação prática e espiritual metodicamente racionalizada, é o ethos profissional burguês, legalizando também a exploração do trabalho.

Caminhando um pouco mais na teoria política que envolve sentimentos democráticos temos por exemplo 'A Democracia na América' de Tocqueville (2000) sobre os sentimentos e opiniões e Tocqueville (2005) das leis e dos costumes. Não podemos tocar em matéria política sem falar em democracia e o exemplo mais ilustre é o norte americano, ambiente de um povo referência política para os brasileiros principalmente em questões de atualização de quadros e referências político-partidárias. O autor Tocqueville (1805-1859) apreendeu a igualdade imaterial, um princípio que constitui e ordena socialmente a democracia, as leis e costumes impregnados por esse princípio de igualdade imaterial fornecem as condições de funcionamento de uma republica democrática americana. Com isso, relaciona a produção das representações com toda existência social dos norte americanos pelo viés de sua cultura. A ideia de igualizar as condições quando gestada pelas luzes intelectuais leva à liberdade. Essa igualdade é um modo de existência social, um conjunto de paixões e uma dinâmica política indefinida, compreendida pela consequências e os comportamentos que induz deveriam ser fenômenos duradouros como sustentou François Furet (2005) sobre a fora americana democrática de ser.

Os grupos religiosos são prenhes de ideias e sentimentos que sustentam a sua noção de democracia e de sociedade, incluindo a noção de família. Elas influenciam a sociedade civil ou política. Esse amor pela igualdade e poder social e naturalizado e guia os indivíduos inspirando confiança no Estado ou nos representantes políticos que prezam ou falam em justiça, do que é justo. Na justa medida do gosto pelo bem-estar, colocando os civis na dependência dos governantes, sendo livre as associações cívicas. Esse modelo de união sentimento-opinião foi transferido para o Brasil no formato da nova direita, a saber por exemplo: em sustentar a saída da Dilma da presidência foi motivada pela corrupção escancarada, nas célebre opiniões de que "a justiça a tirou do poder por causa das corrupções", desse jeito exibidas na mídia ignoram que as nossas redes informativas tende a mostrar o negativo, o que é ruim e não o que é bom em matéria política, coisas da propaganda e merxandagem publicitária, para tudo há motivos e alianças que não podemos simplesmente ignorar. Podemos de modo simples começar a compreender a informação e não sair por aí repetindo a palavra alienação sem saber diferir categoria de conceito. Enfim, temos como sociedade cívica o dever de interpretar.

Por fim é ainda importante resgatarmos Lamounier, Carneiro e Abreu (1994) quando tratam das transformações da nossa recente democracia comparada ao Estados Unidos ou à Suiça. A obra deles "50 anos de Brasil E no entanto se move: formação e evolução do Estado democrático no Brasil 1930 – 1994" retoma o sentimento brasileiro anti-varguista, em suma seríamos um povo muito individualista em nosso ser político. Se faz importante entendermos, então, as questões teóricas das relações entre Estado e Democracia e esse conceito é entendido como um subssistema político institucional para a instauração e progressiva institucionalização dos princípios e procedimentos que regulam as forças políticas organizadas pelo voto popular com vistas à conquista de postos políticos públicos. Esclarece que o Estado não se limita a soberania. Em termos de representação política significa espelhar a diversidade de interesses e segmentos sociais. O paradoxo é que essas significações precisam ser continuamente recriadas como unidade de ação e decisão para conseguir a união da República e representar a diversidade social no jogo democrático.

Nas palavras dos três últimos autores a nossa democracia se consolidaria com a desconcentração socioeconômica e com o fortalecimento do subsistema representativo-democrático. Precisaria haver um estruturamento e organização interna nele. Requerendo, portanto mudanças na cultura política e nos valores constitucionais que reformulem o modelo brasileiro de crescimento para condicionar a liberdade como horizonte democrático. Tudo isso precisa ser incorporado ao nosso jogo político em especial pela bancada evangélica que se pretende continuar no plano político partidário.

  • Cientista Social. Email:souzarenascereventos@outlook.com