Será mesmo que tudo deve ser justificado com este chavão? O quinhão de nossa cultura passa agora pelo crivo de ver tudo justificado e consagrado pela via do consumo barato sendo balizado pelo dizer: “Vivemos tempos modernos”?
Valores não são mais os mesmos. O ser deixou lugar para o ter.
Ai de quem não tem!
Pouco importa o que você é. Pouco importa o que você sabe. Vale sim, o que e o quanto você tem. O quanto acumulou. E, também, pouco importa de onde veio essa riqueza. Para quem os valores são mensurados pelo ter, é de somenos importância a via por onde chegou o dinheiro acumulado.
Tudo isso é resultado de uma sociedade hipócrita. Repudiamos nos outros aquilo que nos excede. Aquilo que sobra em nós. Criticamos os que se corrompem. Rejeitamos os corrompidos, mas nos esquecemos de olhar para nós mesmos e sentir que na menor oportunidade, estamos surrupiando o dever e desviando nossas obrigações.
Um pai ao olhar seu filho e ver em seus olhos algum ar de reprovação, quando sua vida, não está conforme os ditames do sobrenatural dever, resiste por algum tempo quando os olhos do filho se fixam nele? A criança sabe. Ninguém engana!
Contudo, os chamados tempos modernos não dão “tempo” para os filhos sentarem-se com os pais. Não existe tempo para o diálogo, pelo contrário, melhor não ter este tempo, dizem.
Nos tempos modernos, não se pode perder “tempo”. O tempo é dinheiro. Os negócios consomem o tempo que deveriam ser consumido junto a uma mesa, onde a família deveria se reunir.
Pais não têm tempo para os filhos. Maridos não têm tempo para suas esposas e, menos comum, elas também não têm.
E o que dizer do tempo investido na relação com os amigos? Amigos têm tempo para ouvir os problemas dos seus amigos? Dizem: Todo mundo tem problema, você não é diferente. Deixa os problemas para lá, vamos falar de futebol e mulheres. Vamos tomar uma e a gente esquece tudo isso. Você vai ficar bem melhor.
E nada de perder tempo ouvindo a aflição e angústia alheia. Os tempos modernos nos levam a outra logística de solução. Não temos tempo para ouvir. Na verdade, não queremos ouvir. Não queremos nos sacrificar. Na primeira dificuldade no trabalho abandonamos o posto. Nos desencontros familiares, debanda-se, larga-se o barco e pouco importa quem ficou lá dentro. È bíblico: “Obedecer é melhor que sacrificar”.
Os tempos modernos nos levam à metas altamente pessoais e egocêntricas. Importa a minha felicidade. A qualquer custo e a qualquer preço devo buscá-la, mesmo que devolva a outrem o perigo do desgosto e da infelicidade.
Já ouvi alguém dizendo: “Pare de correr atrás, pare de se importar. Seja indisponível, desapegue. Pessoas gostam, do que não tem...” Seria esta uma boa razão para nortear nossas relações interpessoais?
Talvez, esta outra afirmação nos leve a conclusões mais acertadas: "Dê valor às “coisas” enquanto as possuem, pois sentir saudades não é motivo suficiente para tê-las de volta". E, esta vale para o ontem, o hoje e com certeza ao amanhã, mesmo no mais profundo evoluir dos modernos tempos.
É evidente que homicídios, assassinatos os mais violentos, existiram sempre. Contudo, o fato de não ter, para alguns embalados pela exigência de uma sociedade de consumo que urge fazer do individuo um objeto que se ilude pelo desejo do possuir, coisas ou pessoas, fazem de nossos tempos modernos, uma lição tão triste quanto trágica, do ter, a qualquer preço e de qualquer jeito.
Estaremos em breve, usufruindo das melhores tecnologias, com os melhores carros, a mais sofisticada TV e som, confortáveis e lindas casas, mas sem sossego e sem clima para viver dentro dela, um lar. Sem convívio com os de dentro e com medo dos que estão do lado de fora.
Bom dia.
Melhor semana.
Professor e Campista