A natureza, a tecnologia e a desintegração do homem como ser

Por: Davi Roballo - 13/06/2018 07h00

Existe uma máxima que diz "Apesar dos pesares, a vida é bela." Essa é a dicotomia em que a vida transcorre e é pavimentada por lutas, desafios, superação, frustração e alegrias, tudo de forma intermitente, uma vez que a perenidade de qualquer desses acontecimentos nos esgotaria, pois tudo que é contínuo tende a perder o encanto. O ser humano, queiramos ou não, é movido por esses acontecimentos intercalados.

Não é segredo que os acontecimentos que exigem mais de nós são a maioria. Assim sendo, muitas vezes nos sentimos despreparados e sem forças para enfrentar a própria vida. Isso ocorre pelo simples fato de termos perdido parte de nossa integração com a natureza, isto é: perdemos parte da conscientização de que tudo se movimenta, tudo está em constante transformação, a relva que cresce, a árvore que floresce e produz o fruto e dentro dele a semente. É preciso resgatarmos a consciência de que toda transformação é inquieta e constante, além do mais, como somos parte da natureza não poderíamos ficar imunes a isso.

Falta-nos o hábito de observar a natureza como um todo e suas lições para nossa vida. Ao adquirirmos a praxe da reflexão e da observação podemos perceber que a nossa volta existe tristeza em tudo que é estático, a água parada que apodrece e a árvore seca que não mais movimenta seus galhos. Somos movimento, mas devido ao livre arbítrio, diferentemente de outras criaturas podemos escolher entre estacionar ou seguir sempre em frente.

É importante refletirmos que na vida tudo gira em comunhão. O calor do Sol a aquecer a nossa pele e a distribuir sua energia pela Terra proporcionando a vida, ao mesmo tempo em que impõe a sua medida, ou seja, exposição demasiada queima a pele. Ainda quanto ao Sol, inebriados de nós mesmos e pela falsa noção de autossuficiência não percebemos o quanto há de beleza e altruísmo nesse astro que doa seu calor sem nada pedir em troca.

Conduzidos pelos ventos do progresso sequer estamos tendo tempo de apreciar a água do mar, de um rio ou de um lago, para ver sentir sua poesia pronta para encher nossos ouvidos e inebriar nossos olhos. Momentos em que podemos nos questionar: o que tenho feito de minha vida? Como estou a me sentir interiormente? O que tenho feito para movimentar meu viver? Encontra-me parado acumulando pesares ou movimentando-me pela vida, cultivando o amor e a gratidão por estar vivo?

Estamos tão cegados pela lei utilitarista da vantagem que não estamos conseguindo nos desligar desse mundo competitivo, nem mesmo para observar a graça e a beleza de uma simples flor de beira de estrada ao se movimentar dançando ao ritmo do vento, que nada pede em troca disso.

Inebriados pelo consumo não percebemos que estamos parados, totalmente reféns dos modismos culturais e consumistas, enquanto a vida exige desprendimento daquilo que é supérfluo e inservível a paz de espírito. Não bastasse a escravidão material em que nos arrastamos pela vida desde a revolução industrial, nas últimas décadas nos sujeitamos uma nova forma de escravidão, ou seja, a servidão psicovirtual engendrada pelas novas mídias sociais em comunhão com o velho mercado.

O casamento das novas tecnologias e mídias com o mercado de consumo tem provocado consequências tão arrasadoras, que não mais estamos paralisados abstratamente, mas a inação se estendeu de forma violenta ao nosso estado físico, uma vez que estamos nos movimentando cada vez menos, pois nossas horas estão sendo gastas na hipnose que as telas nos causam ao pautarem nossa vida.

Antagonicamente o fenômeno tecnológico vigente tem encurtado distancias para aqueles que se encontram distantes e afastados aqueles que se encontram próximos, mas a pior distância é aquela que estamos causando a nós mesmos, ou seja, o gradativo afastamento de nossa própria natureza, seja na forma de amar, quanto de interagir com os demais elementos que compõe a vida.

Ainda há tempo para nos conscientizarmos de que o mais importante é Ser humano em detrimento ao Ter e ao Aparecer, pois estes últimos não possuem calor, apenas tormento.

Jornalista, Especialista em Comunicação e Marketing / Especialista em Jornalismo Político. (daviroballo@gmail.com)